
O interior do Rio Grande do Sul, estado
mais ao sul do Brasil, é formado predominantemente por grandes áreas rurais que
circundam pequenos centros urbanos. Este verdadeiro mar verde é dividido em
propriedades agropastoris, algumas pequenas, muitas cujas dimensões se perdiam
de vista. Em todas elas, sem exceção, há pelo menos um piá. Forma como a região
chama genericamente qualquer menino ou guri. Esta história é sobre um destes
piás.
O pequeno Januário, magrinho e mirrado,
da estatura que cabia em seus dez anos de idade, vivia a correr na volta das
casas ajudando nas lidas diárias. Alimentava as galinhas, buscava lenha pro
fogão. Voava em seu petiço quando um recado urgente precisava levar.
Nos raros momentos em que se permitia
brincar, principalmente à tarde, na hora da sesta dos adultos, virava
"grande" também. Tropeava e parava rodeios inteiros com gado feito de
pequenos ossinhos. Laçava, marcava, castrava e curava. Também domava cavalos
imaginários – as varas mais altas da mangueira viraram tropilhas inteiras,
todas amansadas a laço por seu rebenque de meia.
As rotinas cotidianas na campanha iniciam
muito cedo, e um menino já tem muitas atribuições e responsabilidades. Buscar
as vacas de leite para embretar na mangueira era o primeiro ofício do dia do
pequeno Januário. Cedo mesmo, porque enquanto a peonada ia acordando para tomar
o primeiro mate, alguém da cozinha já ia, de balde em punho, iniciar a ordenha.
Quando o guri entrava no galpão, a roda
de mate já estava formada. Olhos e ouvidos atentos. O capataz ia falando das
coisas que deveriam ser feitas naquele dia. Os olhos do piá fixos na cuia, que
passava de mão em mão. Quando chegava sua vez, a cuia passava ao largo. A
peonada olhava para ele, com as mãozinhas estendidas. Davam risadas amigas,
passavam a mão na sua cabeça e diziam que quando ele fosse "mais
grande" tomaria mate como os gaúchos. Aquilo se repetia todos os dias.
Depois que a peonada encilhava seus
cavalos e saía para o campo, ele pegava a cuia com a erva lavada, a água já
morna, e servia um mate escondido. Depois do café, pegava o petiço e se tocava
a trote para o colégio rural. Em seu pequeno coração, a esperança de que o
próximo dia seria diferente. Que suas mãos pequeninas ganhariam a cuia, e
aqueles velhos gaúchos, que admirava e nos quais se espelhava, o veriam como um
igual. Um gaúcho.
Mas por que tinha que esperar tanto? Ele
levantava tão cedo quanto os peões! Lidava na mangueira com coragem e alegria!
Dava comida pros bichos, ajudava no banho das ovelhas, descascava
"pêsco" para fazer passa... Então por que não podia matear?
Em uma noite fria de julho, o pequeno
Januário não conseguiu dormir. Deitado em sua cama com os olhos abertos,
repetia as perguntas e não achava respostas. Ele sabia que, mesmo não sendo
"grande", era tão gaúcho quanto os demais.
Madrugada alta! O frio do inverno parecia
que encarangava até a chama da lamparina de querosene.
Januário levanta, enrola-se num poncho
velho e, em passos miúdos, vai direto à invernada onde as vacas leiteiras
pernoitam. Elas se assustam, acostumadas a serem tocadas mais tarde. Contudo,
logo baixam a cabeça e se vão rumo à mangueira da ordenha. Os pés do piá,
quebrando a geada, pisavam firmes como se quisessem esquecer o frio. Esquecer o
medo. Medo de ser pego "fazendo arte".
Depois, pé ante pé, entra no galpão.
Sorri ao ouvir os roncos da peonada que dorme no alojamento ao lado.
Onde até pouco tempo havia um grande fogo
de chão, agora apenas cinzas e um pai-de-fogo sem qualquer sinal de calor.
Nervosamente, empilha palha de milho e gravetos. Sabia como principiar um fogo,
pois já fizera isso várias vezes em sonho.
Um pau de lenha... outro pau de lenha... "Onde
estão os fósforos?" Dentro de uma gamela quebrada, junto da palha e do
fumo em corda. Mãozinhas tremendo, dedos arroxeados de frio. "Acende,
palha! O frio não deixa... agora vai... ACENDEU!"
Na tina de barro, enche a cambona com
água.
"Água gelada, parece que corta!"
O fogo começa a aquecer o galpão, que se
ilumina em um lusco-fusco de luzes e sombras dançarinas. O coração do piá se
aquece também. Luzes se acendem em seus olhos miúdos.
A cuia na mão, a erva tombando, a água
esperta.
"Incha logo, erva!" Até a água sumir, parece que passaram
horas.
"Agora só falta a bomba, tapando
o bocal."
"Pronto!"
A água na cambona começa a chiar, e a
mãozinha pequena, no cabo de arame, nem sente que queima!
Enche bem a cuia, igualzinho os peões. Uma lagoa verde e espumante evoca
orgulhos e sonhos secretos. Januário suspira profundamente. Não consegue mais
segurar o que cresce em seu peito e chora mansinho.
Lá fora, a cantoria dos galos anuncia
mais um dia de inverno no sul. Dos olhos do piá, lágrimas quentes rolam sem
embaraço. Quente também é o mate que ele sorve com gosto. O salgado da lágrima
e o amargo do mate nutrindo esperanças.
A doce revelação: "EU JÁ SOU UM
GAÚCHO!" E aquele é o melhor mate que as mãos de um gaúcho já fizeram
no mundo!
Quando a peonada da estância começa a se
movimentar – caras amassadas em direção ao galpão – encontra o piá mateando
sozinho, em silêncio. Os olhos molhados miravam o fogo.
Ninguém disse nada. Não ousaram falar. Nenhuma
risada ou mãos calejadas afagando os cabelos revoltos. Sentaram, formando uma
grande roda, e aceitaram o mate que o piá alcançou. As mãos pequenas e, agora,
firmes do pequeno homenzinho passavam a cuia. Entre aqueles peões rudes, de
caras judiadas e sérias, uma certeza:
Ali não mais um piá, mas um GAÚCHO, afinal.
GLOSSÁRIO (na ordem que os termos aparecem no texto):
- das casas: maneira que o morador da zona rural se refere à parte construída da propriedade, à sede.
- chasque: recado
- sesta: cochilo (à tarde, depois do almoço)
- parar rodeio: reunir o gado
- gado de osso: uma das brincadeiras da campanha era confeccionar, com ossos, tropas de gado, pois não havia brinquedos feitos em fábricas
- mangueira/brete: cercado de madeira onde os peões prendem o gado para realização de tarefas
- rebenque: espécie de chicote
- mate: chimarrão
- erva lavada: mate com erva já sem gosto
- petiço: cavalo pequeno
- pêsco: pêssego (a passa de pêssego é uma iguaria campeira saborosa!)
- invernada: espaço de campo delimitado por cercamento, onde os animais ficam confinados
- fazendo arte: fazendo malcriação, aprontando
- urutau: ave de hábitos noturnos e canto triste
- pai-de-fogo: lenha maior, onde as menores são escoradas para dar sustentação ao fogo e mante-lo acesso por mais tempo
- gamela: espécie de tigela feita de madeira.
- fumo em corda: tabaco para confecção de cigarro de palha, palheiro.
- tina: recipiente para armazenar água
- cambona: espécie de chaleira rústica, que pode ser feita com uma lata qualquer
- cuia: cabaça, porongo onde é feito o chimarrão
- bomba: espécie de canudo de metal para sorver o chimarrão




Que história gostosa,
ResponderExcluirque me levou a minha infancia.
Obrigado!!! Abração!
ExcluirLeandro enquanto lia, meus olhos se encheram de lágrima e não pude conter o sorriso. Muito lindo o texto, me arrepiei dos pés a cabeça. Parabéns pela sensibilidade e por nos proporcionar uma leitura tão gratificante.
ResponderExcluirOi, Débora! Muito obrigado pelo carinho... Acho que esse texto conta um pouco da vida de todos nós, né?
ExcluirAbração!
Adorei! Ótima história!
ResponderExcluirOi, Zenilda! Obrigado pelo carinho!!! Abração!!!
ExcluirBom dia. Lindo texto. Remeteu a minha infância. Vou mandar para minhas filhas que não nasceram aqui. Mas são gaúchas de coração e tradição. Parabéns.
ResponderExcluirMuito obrigado!!! Depois me diz o que tuas meninas acharam! Abração!!!
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