OPINIÃO 114 - Para que serve um CTG?

Muitos dos amigos que tenho, principalmente aqueles que possuem uma leitura mais aprofundada sobre as raízes do Movimento Tradicionalista Gaúcho, tratam com crítica tudo que é feito sob os telhados dos galpões dos CTGs. Algumas críticas são semânticas, posicionamentos sobre as denominações de cargos como “patrão, vice patrão, primeira prenda, peão”. Outras são filosóficas, pois relacionam as denominações com processos exploratórios em estâncias, onde grandes proprietários de terra (patrões) historicamente valem-se do trabalho análogo à escravidão de seus funcionários (peões), que desconhecendo seus direitos trabalhistas, se submetem a jornadas de trabalho extensas, sem formalização e sem direitos. E há ainda as críticas históricas, pois o Movimento tem seu ponto alto na “celebração” de uma guerra, que além de ter ceifado a vida de milhares de pessoas, teve todos os ingredientes de uma barbárie, como violência, estupro, misoginia, corrupção.

A instituição Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) surgiu em 1966, muito depois da “fundação” do primeiro Centro de Tradições Gaúchas (CTG), em 1948. No entanto, tem em sua essência o “Partenon Literário” (1868), sociedade que reunia a elite intelectual da província, e o “Grêmio Gaúcho” (1898), entidade fundada por Cezimbra Jacques com forte influência política e filosófica. Essas duas organizações viam os “feitos heroicos” do passado dos primeiros gaúchos como inspiração, sem questionar as condições com as quais estes foram submetidos, como o extermínio de índios, a exploração escravocrata da mão de obra, a servidão das mulheres e a exploração militar de escravos negros. Criaram o mito do gaúcho cavalheiresco, altivo, solitário, bravo e à cavalo. 

Apesar de tratar de tradições, o MTG, entidade com cunho social, filosófico e organizacional, evoluiu muito, do ponto de vista coletivo. Atualmente, além de organizar eventos (culturais e, principalmente, competitivos), congrega mais de 2.500 CTGs, e mais de 4.000 entidades menores filiadas (piquetes), conforme publicação de 2019 da Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha (CBTG). São cerca de 400 mil jovens com até 25 anos participando de atividades que buscam nas referências histórico-culturais sua base, conforme publicação do G1, de 2015. Mesmo àqueles que torcem o nariz à clara supervalorização do caráter competitivo, não se pode desconsiderar a relevância de uma instituição que reúne sob seu estatuto um número tão grande de pessoas, principalmente jovens. 

Então, passados mais de setenta anos da fundação do primeiro CTG e mais de um século e meio do surgimento do Partenon Literário, para que serviria um CTG, unidade do Movimento Tradicionalista Gaúcho, se este mito de caráter irrefutável e características heroicas está cada vez menor diante de pesquisas históricas? Se o gaúcho original não era tão infalível, heroico ou corajoso; se a “prenda”, em vez da “joia do pago” está cada vez mais sendo reconhecida como uma mulher sofrida, estuprada e servil; se o general farrapo aparece com cada vez mais frequência à frente de barbáries; o que um tradicionalista pode comemorar dentro de um galpão de CTG?

Os Centros de Tradição Gaúcha são entidades de cunho social. Organizam-se sob alcunhas caricatas, com diretorias (patronagens) compostas por presidente (patrão), vice-presidente (vice patrão), secretário (capataz), tesoureiro (agregado das guaiacas), e outras funções comuns a agremiações, também com designação personalizada, como orador (xiru das falas), rainha (primeira prenda), além de departamentos (invernadas) e Conselho Deliberativo (Conselho de Vaqueanos). Além disso, mantêm quadros sociais com compromissos pecuniários. Ou seja, se tirarmos as denominações tipicamente regionais, os CTGs estão posicionados como qualquer entidade social que tem por finalidade reunir pessoas com interesses em comum, como um clube de piscina ou uma escolinha de futebol, por exemplo. 

Contudo, as entidades tradicionalistas possuem características muito interessantes, que as distinguem claramente das demais agremiações análogas. Nos clubes de piscina ou nas escolinhas de futebol, nenhuma pessoa pode dar um mergulho, ou jogar em seus campos de jogo, se não forem sócios ou desembolsarem valores que o permitam fazê-lo. O grande motor das entidades tradicionalistas, esses 400 mil jovens que fazem parte dos seus quadros artísticos ou culturais, não fazem parte de seus quadros sociais com participação financeira. Os dançarinos, sapateadores, declamadores ou intérpretes, as prendas de faixa e peões de crachá, não pagam às entidades para representá-las. Em uma escolinha de futebol, mesmo que um garoto vá disputar um torneio vestindo o uniforme desta, ele continuará pagando sua mensalidade para fazer parte do quadro de jogadores. No CTG isso não acontece. Os integrantes das invernadas artísticas pagam valores referentes ao salário do instrutor, dos músicos e da indumentária que utilizará nas apresentações. No entanto, a maior parte das entidades tradicionalistas mantém em seus quadros mirins e juvenis, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, cujos compromissos financeiros são arcados por eventos (jantares, promoções, rifas) e por “padrinhos” e doações. Em quinze anos de trabalhos exclusivos com grupos de danças tradicionais, em entidades em todo Rio Grande do Sul, jamais ouvi falar de um único caso de criança que tivesse sido afastada de um elenco artístico porque seus pais não cumpriram com compromissos financeiros. Muitas vezes as famílias sequer estão à par do que acontece na entidade, ficando sob responsabilidade de coordenadores e demais pais, os cuidados com as crianças e jovens tradicionalistas.

O CTG no século XXI cumpre uma função social importantíssima, e ainda não reconhecida por grande parte da sociedade, pois recebe em sua estrutura, crianças sem sequer exigir que seus pais “se tornem” tradicionalistas também. Comportamento esse que se opõe ao que encontramos em muitas igrejas, por exemplo, que para exercer sua caridade, exigem fidelidade espiritual e presencial de toda família. Para manter uma criança em uma evangelização (catequese, doutrina), a família toda deve frequentar os cultos, contribuir com dízimos, professar a fé. O CTG até tenta isso, mas não abre mão de uma criança que está entre seus dançarinos mirins, por seus pais não abraçarem a mesma causa. Sobrepõe o desejo da criança ao desinteresse dos pais, e isto não acontece em qualquer outro tipo de agremiação social. 

O caráter de formação do jovem integrante do tradicionalismo já não passa mais por pregações filosóficas ou ideológicas. Não se faz “palestras” aos componentes de uma invernada exaltando o agronegócio, a magnitude da estância e do latifúndio. Na verdade os dançarinos sequer se importam com isso. Entre as pessoas de bombacha ou vestido de prenda, encontramos espaço para discussões sobre feminismo, desconstrução de princípios machistas e homofóbicos, entendimento de que o ser humano é quem pode garantir a perpetuação da cultura e da tradição, indistintamente. Hoje sabe-se que qualquer tipo de discriminação não merece espaço dentro de um CTG, mesmo sob resistência de alguns poucos que ainda usam o tradicionalismo como desculpa para “conservar” hábitos de natureza discriminatória. Estes, que encontram conforto na servidão da mulher e no afastamento do homossexual, estão em extinção. Serão engolidos por estes 400 mil jovens que estão chegando.

Entre os dançarinos de grupos tradicionais encontramos gays, lésbicas, negros, pobres, indígenas. Nestes grupos as meninas erguem a voz e a mão, se for necessário. Nestes grupos, o homossexual tem voz e circulação livres. E, talvez aí, esteja a grande vantagem do caráter competitivo de eventos como o ENART. Os elencos artísticos tornam-se verdadeiras famílias multifacetadas com objetivo comum, seja o prêmio ou a arte em si, deixando desta forma completamente de lado a segregação. O dançarino quer próximo de si alguém que ame a prática da dança, e que esteja disposto a renunciar a muita coisa em nome do aprimoramento como dançarino. Mas não questiona sexual ou ideologicamente um colega de grupo. E isso tem início lá na invernada mirim. 

Não estou aqui dizendo que os CTGs são templos imaculados de igualdade e respeito. Ainda há muito o que fazer. Mas olhando para esses milhares de jovens que se abraçam, choram e sorriem juntos em nome da tradição e da arte, e olhando para o quanto evoluímos nos últimos vinte anos, percebo que as perspectivas são muito positivas no que diz respeito a importância das entidades tradicionalistas na desconstrução de preconceitos. 

Finalmente, respondendo à pergunta do título, digo que o CTG, a célula do MTG, serve para reunir pessoas com a possibilidade de torná-las melhor, através da comunhão, da possibilidade de criação de espaços de discussão entre pares, da promoção da cultura e preservação do folclore. Serve para oferecer ao jovem um lugar de aprendizado e partilha, onde a reunião com amigos não se dá sem que haja responsabilidade e respeito mútuo. O Centro de Tradições Gaúchas, hoje, cumpre um papel que deveria ser do poder público político institucional, ou da família, que é o de receber a criança e dar-lhe carinho, acolhida, sociabilidade e, principalmente, perspectiva. Quando um CTG assume este papel, por menor e mais humilde que seja o espaço em que está instalado, ele se torna maior que o próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho.



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Comentários

  1. Cara, muita coisa mudou desde a ideia do "Sociedade, associem com a gente" que o finado Gildo pregava no "Reconheço que sou grosso". Quando entrei de cabeça no mundo do CTG, em 1997, lembro dos concursos internos de peão e prenda pra ganhar crachá e faixa. Para além das ideias hoje ultrapassadas de que os peões tinham que saber da lida e as prendas precisavam saber bordar, cozinhar e outras tarefas de casa, eu percebo que hoje em dia não há mais aquela preocupação com o social. Os peões e prendas representantes das suas entidades arrecadavam alimentos e roupas, levavam os grupos para apresentações em asilos e orfanatos... Com o tempo essa socialização se perdeu. Ainda havia resquícios (mas obrigatórios) quando os grupos faziam o SAT para poderem participar do ENART. Com a queda desta exigência e extinção do SAT a questão social se perdeu quase por completo.
    A única coisa que me incomoda hoje em dia é a competitividade excessiva. Fora isso eu ainda acredito que o CTG é um lugar sadio onde famílias podem comungar coisas boas.

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    1. Obrigado, meu amigo! Ainda lembro que a pouco tempo se discutia se um homem poderia entrar em um CTG de brinco. Essas coisas estão ficando para trás... Nós estamos testemunhando essas mudanças. Abraço grande!

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  2. Olá, colega. Há muitos anos, aqui em Alegrete, o CTG's eram destinados apenas aos brancos. Estou escrevendo algo sobre! Excelente texto. Abraço!

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    1. Oi, colega! Pois então... o CTG já foi visto como um espaço onde se confundia tradicionalismo com conservadorismo. Felizmente isso vem se transformando, principalmente graças às gerações que estão fazendo parte do Movimento hoje. Um abração!!!!

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  3. Que texto necessário, obrigada por partilhar!

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    1. Muito obrigado, Geísa! Obrigado por estar aqui! Abração!

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