segunda-feira, 11 de junho de 2018

UMA GERAÇÃO TECNOLÓGICA, #SQN!


Quando iniciei a jornada pelas Tecnologias Educacionais, há 19 anos, lembro que uma das expectativas que pais e educadores mantinham era a de que em alguns anos não precisaríamos ensinar informática às crianças e jovens, pois teriam o mundo digital inserido em suas vidas de forma tão natural quanto assistir TV era naquele longínquo 1999. Sequer imaginávamos o tamanho da revolução que a internet massificada traria, nem os impactos na questão comportamental, nas comunicações e no ensino.
Há duas décadas a “internet discada”, com seu barulhinho característico e sua lentidão, impunha limitações que tornavam quase proibitiva uma pesquisa por mídias. Games online, download de aplicações e conteúdo em streming nem eram objetos de interesse de jovens. O que queriam era saber “usar o computador”. Entenda-se por explorar o sistema operacional, dominar as ferramentas para edição de textos, apresentação e planilhas eletrônicas, enviar um e-mail.
O tempo passou e algo surpreendentemente paradoxal aconteceu. Os jovens da Geração Z (nascidos entre 1990 e 2010) cresceram praticamente nadando em tecnologia, mas como receberam tudo pronto das gerações X e Y (entre 1960 e 1990), não passam de consumidores da web. É assustador perceber que jovens de 12 a 18 anos não sabem criar uma pasta para salvar arquivos. Formatar uma página de documento ou enviar um e-mail com anexo também não está entre suas habilidades. Salvar um trabalho no pendrive? O Whats não faz isso? É uma geração viciada e dependente de apps, maravilhas digitais que trazem soluções prontas para quase tudo. Resumindo, as gerações Z e Y queriam saber como fazer, enquanto a Gen Z quer que alguém faça para ela.
Com a dissociação do ensino básico de informática das práticas pedagógicas curriculares nas escolas, tecnologia para o jovem virou sinônimo de smartphones, games e redes sociais. A geração que tornou o computador um objeto doméstico, via-o como um caminho para o conhecimento.
Quinze ou vinte anos atrás a briga nos Laboratórios de Informática era por quem do grupo “seguraria o mouse” para fazer a atividade. Hoje, enquanto um coitado fica quebrando a cabeça para tentar copiar e colar alguma coisa da internet, os demais três ou quatro colegas do time ficam com seus celulares à mão, fazendo qualquer coisa, menos se envolver na atividade. Afinal de contas, como dizem, “esta não é minha parte”.
Há algo de saudosista em lembrar que as crianças nos Anos Iniciais, em 1999, tinham noções de lógica e programação nos primórdios da Informática Educativa. Contudo, percebendo as dificuldades que os jovens têm quando chegam à graduação simplesmente para “usar o computador”, temos a perfeita noção de que erramos em alguma coisa no caminho.




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domingo, 3 de junho de 2018

EXPERIENTES E VELHOS

No Movimento Tradicionalista Gaúcho existem pessoas experientes e pessoas velhas.

As pessoas experientes enxergam que suas instituições são constituídas pelos seres humanos que seus galpões abrigam. As pessoas velhas acreditam que a entidade é o galpão, que quem estiver dentro dele é passageiro.

Os experientes entendem que os jovens são o futuro da entidade, que a contemporaneidade de suas atitudes não é uma ameaça à tradição, pois estes mesmos jovens escolheram estar ali, mesmo tendo um universo de opções que os deixariam livres para ser o que quisessem. Os velhos não. Eles querem dizer aos jovens o que devem ser, ouvir e vestir, deixam claro que as músicas que ouvem e as coisas que dizem não são "compatíveis" com a tradição.

O experiente diz ao jovem que a tradição pode somar, contribuir com sua formação como ser humano. O velho diz ao jovem que ele tem que optar em ser o que é ou um "tradicionalista de verdade".

A experiência ensina que devemos abraçar a todos, para que aqueles que se encontrarem permaneçam. Na lógica do velho temos que eliminar aqueles que não se enquadram logo no começo, para que não contaminem os demais.

O experiente quer aprender com o novo. E aprende! O velho acha que está aqui para ensinar. E tenta empurrar o que acha certo goela abaixo, como se fosse o capataz da verdade.

O experiente ama seus jovens. O velho quer ser temido por eles.

Alguns tradicionalistas experientes são jovens, não importando a idade que tem. Enquanto isso, alguns com vinte e poucos anos já são velhos.

O experiente é reconhecido como amigo. O velho quer ser chamado de patrão.

Os experientes deixarão um legado. Os velhos, no máximo, uma foto em um quadro na parede do CTG.





Estas reflexões pessoais são fruto da observação, depois de 35 anos envolvidos com tradicionalismo gaúcho. Declamador, blogueiro, instrutor de grupos de danças e, hoje, oficineiro de interpretação no Projeto Aquecimento Cênico. São 35 anos convivendo, compartilhando e aprendendo. De orelhano à membro de patronagem. De crítico às inovações a alguém que hoje tenta entendê-las e aprender com elas. Este sou eu, alguém que ama a cultura gaúcha e acredita que apenas através do jovem tradicionalista, de sua força e de tudo que tem a ensinar, podemos extrair o que há de melhor na tradição, perpetuando o que é bom e lembrando, como aprendizado, daquilo que não podemos repetir jamais.
Leandro de Araújo





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Nas fotos, Érico Araújo.




terça-feira, 15 de maio de 2018

EURICO, O OURIÇO

Eurico Espinhoso é um ouriço. Um simpático ouriço-cacheiro, animalzinho da classe dos mamíferos, muito comum em quase todo território brasileiro. Passa boa parte de seu tempo no topo de uma árvore. Desce apenas quando quer se alimentar ou para atender algum outro chamado de sua fisiologia. Tem como característica mais marcante o fato de ter seu dorso, da cabeça à cauda, coberto por espinhos rígidos e pontiagudos, que se não servem como o adorno mais bonito, oferecem uma eficiente e intimidadora proteção contra predadores ou curiosos.

Existe um fato muito peculiar sobre Eurico. Mesmo a inevitabilidade de sua existência como ouriço era suficiente para que se sentisse feliz como tal. Suspirava melancolicamente quando via a elegante e colorida plumagem de alguns pássaros. Como seria legal ter a pele brilhante e sedutora como escamas das cobras ou um pelo liso e macio, tal e qual os gatos e coelhos. Ria sozinho durante estes devaneios. Quando dava por si, lá estavam os grossos e rígidos espinhos, deixando amostra apenas o focinho, os pés e as mãos.

Sua insatisfação era tão grande que, quando percebia estar sendo observado por outros animais, exibia um ângulo que deixava sua natureza original menos aparente, acreditando que desta forma não seria visto como era, mas como gostaria de ser. E assim, tristemente, ia levando sua vida, desejando o que não tinha e fingindo ser o que não era. Pedia ao bondoso deus dos ouriços que ouvisse suas preces e realizasse seu maior sonho: trocar seus duros e pontiagudos espinhos por algo mais bonito e atraente aos olhos dos demais animais da mata.

Certo dia algo inesperado aconteceu. Espinhoso teve as esperanças renovadas e acreditou que, finalmente, suas preces haviam sido ouvidas. Corria de bico em bico a notícia de uma famosa onça, muito conhecida por seus poderes mágicos. Dizia-se que andava pelas redondezas fazendo benzeduras, poções milagrosas e realizando desejos, mesmo os mais difíceis.

Eurico Espinhoso não descansou enquanto não foi apresentado à tão abençoada criatura. Um corvo chamado Pérfido se apresentou, dizendo ser amigo da onça, e fez as honras da apresentação.

Bondosa era seu nome. Representava já ter uma certa idade. Falava mansamente, com um sorriso gentil e um olhar doce. Distribuía conselhos, beijava filhotes, cheirava flores. Parecia mancar um pouco quando andava, mas sua pelagem amarela com lindas rosetas negras fazia com que a onça realmente tivesse um ar divinal.

Ao saber do problema do ouriço, Bondosa o chamou e ouviu cada palavra, balançando afirmativamente a cabeça, sensibilizando-se com a dor do pobre mamífero espinhento. É claro que ajudaria! Contudo, para ter seu problema resolvido, Eurico deveria cumprir duas tarefas simples. Primeiro deveria comer. Comer muito! Era extremamente importante para a mágica funcionar, que Eurico devesse estar com a pança muito cheia. E assim ele fez. Passou o dia inteiro comendo. Comeu tanto que à noite quase não conseguia se mexer.

A segunda tarefa era dolorosa, mas Eurico estava disposto a todos os sacrifícios para realizar seu sonho. Bondosa pediu que ele ficasse completamente imóvel enquanto Pérfido, o corvo, com seu forte bico, arrancasse um a um cada espinho de seu dorso. E assim foi feito. Durante algumas horas e muitas lágrimas, Eurico Espinhoso suportou a dolorosa sessão à qual se submeteu, até ter o último espinho removido de suas costas, restando apenas uma pele lisa, suave e lindamente rosa.

Agradecido, com lágrimas nos olhos, Eurico ergueu as mãos em direção à Bondosa e, emocionado, disse que finalmente estava muito feliz consigo mesmo, que não sabia como agradecer à tão maravilhosa graça.


Bondosa, que agora abria um sorriso franco, exibindo toda uma coleção de dentes enormes e afiados, calmamente disse ao ouriço que não precisava agradecer. Bastava ficar bem quieto para que ela, agora sem o problema dos espinhos, pudesse se servir dele como uma bela e saborosa refeição. Entendendo o real objetivo da onça e a gravidade da situação, o ouriço tentou fugir, mas havia comido demais e não conseguia correr. Não teve jeito, desprotegido sem seus espinhos e letargicamente pesado, acabou virando jantar da onça, que dividiu o banquete com Pérfido, seu amigo.





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quarta-feira, 21 de março de 2018

QUANDO A TOLERÂNCIA FRAQUEJA

Sempre disse, e sempre vou repetir, que a TOLERÂNCIA é a palavra mais bonita da Língua Portuguesa. Mas o atual contexto político e social do Brasil, juro, está me fazendo compreender de uma forma cada vez mais estreita a relevância desta palavra. 

Quando as pessoas celebram a morte de alguém, porque estava em uma posição política contrária, justificando com frases cheias de ódio, cuspidas a quem sequer se conhecia, a tolerância fraqueja.

Quando a morte de alguém é "julgada" de menor importância, porque outras pessoas morreram e não tiveram a mesma repercussão, a tolerância fraqueja.

Quando se celebra a violência, o escárnio e a estupidez, desde que seja direcionado ao "lado contrário", imputando àqueles que assumem uma posição diferente os mesmos adjetivos que são tão refutados quando apontados para si, a tolerância fraqueja.

Quando, por conveniência, se reduz o complexo e plural ser humano a uma única sigla, tornando inimigos o que poderíamos tratar apenas como adversários, a tolerância fraqueja.

Quando, protegido pelo manto covarde da web se brada indiscriminadamente gritos de ladrão, doente, vagabundo, pregando a “morte” daqueles que não concordam com sua linha de pensamento, ainda que aos amigos, para amanhã ou depois, na sua presença, apertar sua mão como se nada tivesse sido dito, a tolerância fraqueja. 

Quando, ao olhar tanto à esquerda quanto à direita, não se vê mais a menor possibilidade de diálogo ou do desejo de aprender com os erros ou acertos do outro lado, a tolerância fraqueja.

Quando o bem comum se torna menos importante do que defender uma posição política, a tolerância fraqueja.

Quando deixamos de racionalizar, tornando-nos não mais que cães marcando território, urinando aqui e ali sem critério, a tolerância fraqueja. 

A máscara caiu. O Brasil de respeito às diferenças, que permitia distintos credos, distintas cores, onde tudo se misturava em um grande carnaval, “mostra a sua cara”. É um país que mata porque se torce por outro time de futebol, porque se vota em outro candidato, porque se reza para outro Deus ou porque ama quem não se pode amar. Cada mensagem compartilhada em redes sociais fazendo apologia à diferença, é uma ode ao ódio. Nos tornamos propagadores da intolerância, da barbárie e da boçalidade. Voltamos a ser medievais.



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quinta-feira, 8 de março de 2018

NÃO AJUDE SUA MULHER EM CASA!


Não, eu não enlouqueci. Este é o título mesmo. E antes que comece a ser apedrejado por todas e aplaudido por alguns, deixe-me fazer entender.

Sua mulher não precisa de ajuda. Acredite em mim! Se por um motivo ou outro você não estiver mais por perto, pode acreditar que ela dará um jeito de resolver sem você. Porque diferentemente de nós, elas são assim.

A mulher não quer um ajudante. Se quisesse, contratava um. Ela quer um parceiro, um sócio, tendo em vista que a casa não é dela, mas de ambos. Ela não quer alguém para quebrar seu galho. Que cuide do filho enquanto ela tome banho. Que faça a janta porque “hoje é um dia especial”. Não quer que você troque a fralda suja do bebê porque participa dos afazeres como um bom pai, mas porque a fralda está suja mesmo. E ponto.

Em vez de ajudar, divida as responsabilidades como se a casa e os filhos também fossem seus.  Não são apenas o carro, o botijão de gás e a resistência do chuveiro propriedades do marido. Sabia disso?

E pasme agora com esta informação chocante! Em alguns momentos, sua mulher também pode não estar afim de lavar a louça, passar pano na casa ou recolher a roupa do varal. Sério! Não há prazeres ocultos em tarefas domésticas que justifiquem você achar que sua mulher vai se sentir realizada, a “rainha do lar”, por fazê-las. Ela também acha um saco e, se pudesse, pagaria alguém para fazer.

Então, amigão. Esquece esse papo de “ajudar a mulher” e assume seu papel de associado no empreendimento, pois quando um sócio não contribui com o desenvolvimento do negócio só há duas soluções: rompimento do contrato ou abertura de franquia.





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sábado, 17 de fevereiro de 2018

INTROMISSÃO MILITAR


Então aconteceu. Para o regozijo de muitos amigos, verdadeiros e de redes sociais, o governo federal anunciou que a intervenção militar no Rio de Janeiro não só é necessária, como já é realidade. A bancada da bala e seus eleitores celebram o fato de que agora, com o exército tocando o terror na Cidade Maravilhosa, o crime e o tráfico de drogas estão com os dias contados. Muitos esperam uma postura de guerra por parte de nossos briosos militares para pôr fim ao desmando dos “vida loka”. Só que não, sem “rechitégui”.

O problema da violência no Rio de Janeiro, ou em qualquer lugar no Brasil, nunca foi uma questão militar. É social. Mesmo que o exército de Israel entre em uma favela e mate todo mundo que tiver qualquer relação com o crime, é só uma questão de tempo para que o processo se reinicie e tenhamos tudo acontecendo exatamente como está hoje. Por que isso? Simplesmente porque o governo federal não está fazendo nada para que a principal vertente do crime no Brasil desapareça: a desigualdade social.

Sim! Sem dúvida há necessidade de ação imediata porque a segurança pública no Rio e em outras capitais brasileiras, simplesmente não existe e o caos está instaurado. Medidas que passem pela polícia despreparada e mal paga, por um judiciário “mãos atadas”, um sistema carcerário insuficiente e ineficiente. Estancar uma sangria de décadas. Mas nenhuma medida de emergência resolve o problema da criminalidade sem a promoção de uma revolução social, com vistas à situação de miséria em que sem encontram muitos brasileiros, ao desemprego, à falta de educação, saúde e, principalmente, de perspectiva.

Esquece esse papo de que a esquerda quer “passar a mão na cabeça do bandido”. A esquerda também tem filhos. Também quer poder andar na rua em paz. Também quer criminoso na cadeia. O que muitos de meus amigos que simpatizam ou militam pela direita não entendem é que de nada adianta pensar que “bandido bom é bandido morto” enquanto o Estado continuar promovendo políticas excludentes, que promovem a desigualdade social. O que gera o crime é a falta de perspectiva, não a falta de milicos nas ruas. No ano passado mais de cem policiais foram mortos apenas na cidade de São Paulo. Todos estavam armados. Ou seja, bandido não tem medo de arma apontada para sua cabeça, porque sabe que tirando a vida de crime, não sobra vida nenhuma. Não há o que se perder e ele aprendeu a viver assim.

Hoje o país vive uma situação política atípica, onde tudo está polarizado (menos a vontade de ver Temer fora do poder, isso é consenso). Irracionalmente definiu-se que ser de esquerda é querer ver bandido livre e ser de direita é querer ver bandido morto. Ambos os sentimentos são irresponsavelmente egoístas e livres de qualquer prerrogativa social. Beleza! O bandido está morto. E agora, o que faremos com o filho do bandido? Esperamos ele crescer e virar bandido para matá-lo também. Pois é isto que nos espera. É o que resta. #FORATEMER






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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

UM BISCOITO DE NATAL – CRÔNICA MODERNA SOBRE O ESPÍRITO NATALINO

Um biscoito de Natal não pode ser de Natal! Porque o Natal não é feito de biscoito. Ele é de plástico, com peças metálicas e luzes que acendem e apagam e fazem um barulho irritante.

Para algo ser feito especificamente para esta data, precisa obrigatoriamente ter passado pela linha de produção em série de alguma fábrica, embalado em plástico transparente e estéril, cujas crianças filhas dos que trabalham nestas linhas de produção não terão como tê-lo, pois seus pais não poderão comprá-lo. Também é preciso que haja outros milhões exatamente iguais e que estejam presos às mentes infantis por graça e obra das repetidas chamadas comerciais da TV, que misteriosamente desaparecerão em janeiro, para voltar somente daqui um ano.

Ora bolas! Onde já se viu? Dizer que algo é de Natal sendo que não será exaustivamente usado por algumas horas e depois largado em algum canto até ser descartado, para que leve alguns milênios até se decompor de verdade? Natalino mesmo tem que poluir o meio ambiente e gerar discórdia - “Por que o dele é melhor (mais caro) que o meu? ” E também tem que fazer os pequenos não entenderem porque algumas crianças ganham do Papai Noel coisas tão legais, enquanto outras ganham tão pouco. Ou nada.

Para alguma coisa ser de Natal, ela não pode ter ALMA, ela tem que ter PREÇO. Tem que gerar impostos para fazer girar a economia do país, mesmo que este país não seja o nosso. Tem que gerar emprego, mesmo que seja subemprego. Tem que deixar alguém muito mais rico do que já era, mesmo que às custas dos sonhos ingênuos de quem vai sacrificar algumas semanas de carne no jantar, para colocar um sorriso efêmero na boca de seu filho.

Um Natal moderno tem que ser cercado de objetos que prendam a atenção das pessoas de maneira que elas não precisem conversar, nem olhar nos olhos uma das outras sem ser através de uma tela. Tem que ser touch, smart e fazer selfie. Ao mesmo tempo indestrutível e durável até o lançamento da próxima atualização, que vai acontecer daqui alguns meses. Tem que ter bateria que dure muito. Ser prateado ou dourado. E grande! Para ser visto de longe pelas outras pessoas. Tem de fazer eu me sentir exclusivo, como todos os outros milhões iguais a mim. Egoístas, ingênuos ou tolos.

As coisas natalinas não precisam passar de uma geração para outra, como a receita de um biscoito de Natal. Têm que ser lançamentos! Têm que ter estreia mundial! Ainda que sejam exatamente iguais à versão do ano passado, apenas com uma “roupa nova”.

Um biscoito de Natal não é assim. Ele é feito com as mãos. As mesmas mãos que apertam as bochechas dos netos, que acariciam, que tremem com a chegada da velhice. Em sua receita vai farinha, açúcar, canela e amor. Dos três primeiros uma pitada, se for o caso. Mas do quarto ingrediente quantidades substancialmente grandes. Se transbordar, melhor. O biscoito de Natal pode durar segundos depois de ser ganho, ou pode ficar guardado em um lugar especial por meses, pois a pessoa que ganhou ficou com pena de comer, como se a presença do biscoito ainda mantivesse viva e quente a presença de quem o deu como presente.

No futuro, em vez da ceia e da comunhão com a família, entregaremos presentes de Natal através de robôs, ou drones, que levarão os pacotes com uma mensagem de voz gravada desejando Feliz Natal e finalizando com “Um beijo ou um abraço! ”, que será apenas parte do protocolo de entrega, pois não saberemos mais o que são um beijo e um abraço. Os comerciais de TV continuarão exibindo mensagens belas e emocionantes, mas continuarão sendo, assim como são hoje, apenas a moldura para o verdadeiro retrato natalino: um gigantesco pacote de presente, comprado em doze vezes no cartão de crédito, com uma linda fita vermelha esvoaçante, que se será chamado popularmente de O GRANDE ESPÍRITO DO NATAL.

Minha dica para antes que isso aconteça: abrace forte sua família. Chore com ela se sentir vontade de chorar. Beije os mais velhos enquanto estiverem por aqui, pois isto será muito mais significativo do que levar flores e saudade quando não estiverem mais. Principalmente para ti, que vai dar o beijo. Peça desculpa para seus filhos, por todas as vezes que tivestes que ser duro com eles. Não se limita a ajudar, sê parceiro. Agradece. Declara amor. Ama!





Fotos de biscoitos artesanais confeccionados por "Tia Iara Biscoitos Decorados"

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terça-feira, 26 de setembro de 2017

O CAVALEIRO E O ESPELHO

Belo era um cavaleiro. Medieval.

Como todo cavaleiro tinha a missão de proteger o reino e suas instituições mais importantes: a família, a igreja e o rei. Não necessariamente nesta ordem. Costumava sair à rua com uma espada à cinta, para que fosse reconhecido publicamente. Se divertia vendo o temor que causava naqueles que não tiveram a honra de ser reconhecidos pelo nobre título. Sentia orgulho da importância de seu trabalho, afinal de contas, poucas pessoas no reino podiam ostentar a imponência de uma espada de cavaleiro e ser respeitado como tal.

Vaidoso, Belo também se considerava um homem muito bonito. Com sua postura sempre elegante, jamais deixaria de fazer reverência às frágeis donzelas do reino. Afirmava que, enquanto estivesse por perto, princesa alguma precisava se preocupar malfeitores ou dragões. A força de sua arma seria suficiente para que elas pudessem continuar tranquilamente vivendo suas vidas tradicionais, dedicando seu tempo àquilo que faziam de melhor, serem donzelas. Andava por entre as casas do reino sentindo-se muito bem com o medo que sua enorme espada causava nas pessoas. Não temam, frágeis donzelas!

Num certo dia, Belo desperta de um sono pesado, fruto da ressaca de uma noite regada a bebidas e donzelas. Um prêmio justo e merecido por sua condição de cavaleiro. Ergue-se de sua cama e, diferente do que fazia todas as manhãs, ao invés de pegar sua espada e partir em busca de novas aventuras, procura um espelho para ver se em seu belo rosto havia sinais da animada noite que tivera. E então acontece algo terrível!

Ao se olhar no espelho, em vez dos dentes brancos e parelhos, pontiagudas presas amareladas. As madeixas loiras e abundantes deram lugar a pelos desgrenhados e sujos. A máscula barba bem aparada desapareceu, dando lugar a algo que parecia escamas. No lugar dos nórdicos olhos azuis, olhos vermelhos de ódio. Um verdadeiro monstro!

Belo tomou um grande susto quando viu seu reflexo. Em seguida riu, imaginando tratar-se de alguma brincadeira de seus amigos cavaleiros. Tentou arrancar a possível máscara e, quanto mais tentava esconder sua feiura, mais ela se revelava. Agora, por baixo das escamas de sua pele, começavam a surgir chifres e seu nariz, antes voluptuoso, crescia e deformava assustadoramente. Aterrorizado, tomado de uma ira irracional, pegou sua espada e, sem qualquer dúvida, espatifou o espelho. O mesmo devia estar encantado, fruto da vingança de alguma dessas tantas velhas bruxas, as quais muitas ele passou a vida inteira caçando e queimando em fogueiras.

Desesperado e com medo de ser visto naquele estado pelas pessoas do reino, vestiu um elmo que escondia totalmente sua feiura, pegou sua temida espada, e saiu pelas ruas do vilarejo a procura de um espelho que estivesse livre do encantamento, para poder-se mirar lindo e sedutor, como sempre fora. Mas não encontra. Cada espelho encontrado pelo caminho reflete ainda mais características monstruosas. Olheiras fundas e negras, gosmas nojentas escorrendo de suas narinas, uma cauda pontiaguda sem pelos. A raiva só aumentava e mais espelhos iam sendo quebrados. Sua espada nunca havia trabalhado tanto!

Seguia sua cruzada destroçando todo e qualquer objeto que pudesse refletir sua imagem. Já não apenas se limitava a pôr fim em seu próprio reflexo medonho, como prometia aos berros queimar todas as bruxas que ainda estavam vivas.

Cumpriu sua promessa sangrenta. Primeiramente, caçou as bruxas que declaravam publicamente sua condição encantada. Em seguida, aquelas que negavam, mas que aparentavam muito pertencer a alguma ordem mágica. Por fim, tratou de queimar aquelas que sequer pareciam bruxas, mas que pelo fato de protestarem pedindo o fim ao bruxicídio, mereciam o fogo também.

Como não havia mais espelhos ou bruxas no reino, Belo, o cavaleiro, sentiu calmamente sua ira se abrandar. Ora! Obviamente sua imagem voltaria à beleza que sempre tivera. Então, depois de acabar com a última bruxa e o último espelho do reino, seguiu a trilha que levava de volta à aldeia.

No meio do caminho sentiu sede e resolveu beber água em um riacho. Chegando à margem de um pequeno rio, tirou seu elmo, soltou a espada da cinta e se abaixou para alcançar a água em um remanso. Foi então que estendeu as mãos em concha e olhou para água.

O terror tomou conta de seu coração! Na água do riacho, entrecortada por pequenos peixes que nadavam de um lado para outro, um reflexo assustador mostrava que o monstro continuava lá. E nada que o cavaleiro fizesse mudava isso. Por mais que batesse com sua espada na água, assim que ela acalmava, voltava a revelar a criatura monstruosa. Já cansado de tanto golpear seu reflexo sem sucesso, começou a perder as forças e caiu, extenuado.

Respirava de forma ofegante, completamente confuso. Em sua cabeça agora uma avalanche de dúvidas e uma única certeza. Por quê? Desde quando? Uma tristeza enorme toma conta de seu ser. Está ferido em sua alma, com medo e sem saber o que fazer.

Recupera o fôlego, volta a sentar-se na beira do riacho e novamente olha seu reflexo. Uma sombra paira sobre sua consciência quando percebe que talvez o monstro sempre estivera ali. Que o olhar de medo das pessoas jamais teria sido por causa de sua grande e temida espada, mas pela sua aparência medonha. Belo entendeu, então, que de nada adiantava quebrar espelhos ou caçar bruxas, enquanto ele mesmo não reconhecesse o que representava para todos que estavam próximos. Muitas vezes os monstros que vemos são apenas reflexos daquilo que está em nós, mas que a vaidade, ou o medo de não sermos perfeitos, acaba por esconder. Os espelhos que quebramos jamais voltam a refletir, assim como as bruxas que queimamos jamais voltarão a fazer sua mágica.

Jogou sua espada na água e a viu afundar rapidamente, até desaparecer no fundo. O mesmo fez com seu elmo. Voltou a pegar a estrada em direção à aldeia. Agora entendendo que se aprendesse a reconhecer seu próprio aspecto monstruoso, talvez pudesse aprender a entender a importância das bruxas e a real utilidade dos espelhos.

Reflexão: Quantas vezes tu já criticaste ou mesmo estranhaste a atitude de alguma pessoa, sendo que tu mesmo já fizeste ou desejaste fazer o mesmo?





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segunda-feira, 12 de junho de 2017

NAMORADA MESMO

Namorada mesmo é quem todos os dias te mostra quem tu és, e que te alerta quando estás deixando de ser. Que te acompanha mesmo quando não está junto, que se faz presença.

Namorada mesmo é quem te dá carinho e caminho, pois as vezes a direção é mais importante que o afago.

Namorada mesmo é quem dança contigo
quando não tem música.

Namorada mesmo é quem te faz não dar bola para o calendário como se o fato do tempo estar passando não te fizesse mais velho porque a felicidade não tem lugar no tempo. E ela te lembra disso, o tempo todo.

Namorada mesmo sorri e briga e te joga uma panela... mas te faz um jantar maravilhoso de vez em quando e faz com que todo jantar junto dela seja maravilhoso.

Namorada, mas namorada mesmo, continua sendo namorada quando o universo inteiro conspira para que ela não seja mais... e continua sendo namorada mesmo quando tu não te achas mais namorado, ou que o tempo dos namorados já passou.



O tempo dos namorados nunca passa para quem tem uma namorada mesmo.



Eu tenho uma dívida de gratidão à vida por ter me presenteado com a melhor namorada que um homem poderia ter. Obrigado, Fabi, por ser a pessoa que dá sentido a minha vida. Te amo para sempre!