E O HALLOWEEN VERDE E AMARELO? - Leandro de Araújo
Para a galera que está usando as redes sociais para reclamar deste movimento em torno do Halloween, por não ser um evento nativamente brasileiro, gostaria de fazer algumas considerações:
- Papai Noel: São Nicolau, natural de Patara e bispo em Mira, atual Turquia, segundo tradição do século IV, jogou moedas de ouro pela chaminé da casa de uma família para tirar suas filhas da prostituição. Virou santo protetor das crianças. A imagem moderna (gordinho, alegre, roupa vermelha) foi popularizada por um anúncio estadunidense da Coca-Cola de 1931 (ilustração de Haddon Sundblom). Ou seja, o Bom Velhinho é uma mistura de tradições cristãs europeias com o competente marketing da Coca da primeira metade do século XX.
- Coelho da Páscoa: as tradições anglo-saxônicas, celtas e germânicas celebravam a fertilidade com cultos a divindades pagãs. Entre elas, Eostre, divindade anglo-saxônica cujo nome é tradicionalmente associado à origem da palavra inglesa Easter (Páscoa). Algumas interpretações posteriores associaram essa divindade ao coelho e ao ovo, símbolos de fertilidade e renovação, embora essa ligação não seja historicamente comprovada. A cristianização de diferentes povos europeus favoreceu a incorporação e a transformação de costumes anteriores, contribuindo para a formação das tradições que conhecemos hoje. Os alemães no século XVII já cultuavam a lenda do coelho que escondia os ovos pintados para as crianças procurarem na Páscoa. Nosso coelhinho da Páscoa é oriundo de uma cultura pagã europeia, celta e germânica.
- Lobisomem: a lenda do homem que se transforma em canídeo é universal. Tem fortes referências nos mitos culturais gregos e romanos antigos. A transformação ligada à lua cheia se consolidou em versões posteriores. Foi trazida para o Brasil pelos portugueses.
- Cuca: a chamada Coca (ou Coco) era uma espécie de bicho-papão ibérico usado para assustar crianças que não queriam dormir. A imagem da bruxa com aparência de jacaré foi difundida pela obra de Monteiro Lobato e popularizada especialmente por suas adaptações televisivas.
- Saci: o mito do moleque travesso que vive na floresta e que tem poderes mágicos é um híbrido tupi-guarani e africano. Ganhou a aparência que conhecemos depois da chegada dos africanos escravizados. A perna que falta é uma referência às correntes ou fugas, segundo algumas interpretações. O chapéu vermelho também é associado, em algumas interpretações, a personagens do folclore europeu, como os trasgos ibéricos.
- Mula-sem-cabeça: mito ibérico trazido pelos portugueses por volta do século XVI. Refletia a forte moral católica, que ditava que qualquer mulher que mantivesse relações sexuais com um padre se tornaria uma espécie de demônio que soltava fogo pelo pescoço sem cabeça. Interessante lembrar que já havia criaturas semelhantes, como Malasangre (Sangue-ruim, em tradução livre), na Península Ibérica, naquela época, que, apesar de não ter relação comprovada com a mula-sem-cabeça, apresentava algumas semelhanças estéticas ou narrativas.
- Festas juninas: possuem tradições muito mais antigas que o cristianismo ocidental. E têm diferentes raízes históricas: no Hemisfério Norte, o mês de junho marca o solstício de verão (o dia mais longo do ano); povos antigos (como celtas, saxões e romanos) acendiam grandes fogueiras para agradecer a fertilidade da terra, espantar os maus espíritos e dar força ao Sol. Para cristianizar o hábito, a Igreja Católica associou a fogueira ao nascimento de São João Batista; Santa Isabel (mãe de João) teria acendido uma grande fogueira no topo de uma colina para avisar sua prima, a Virgem Maria, que o bebê havia nascido (narrativa de tradição religiosa, não histórica).
Como podemos perceber, muitas das tradições que consideramos genuinamente brasileiras possuem origens que ultrapassam nossas fronteiras. São adaptações e transformações de tradições trazidas por diferentes povos, somadas às manifestações culturais que já existiam nestas terras. Para nós, que vivemos aqui no Sul do Brasil, vale lembrar que até mesmo práticas culturais que consideramos símbolos de nossa identidade regional, como a bombacha, o chamamé e a milonga, possuem histórias marcadas por intercâmbios culturais. Querer demonizar uma manifestação cultural com o argumento de que “ela não é brasileira” demonstra apenas falta de conhecimento de nossa história e da origem daquilo que reconhecemos tradicionalmente como nosso. O folclore e as diferentes manifestações culturais contemporâneas nada mais são do que o resultado da passagem do tempo, da hibridização sociocultural e de nossa incrível capacidade de adaptação criativa de elementos universais.
O que seria, então, nativamente brasileiro? Nada? Precisamos refletir, pois o que tínhamos aqui antes da chegada dos europeus, no século XVI, nem sequer era Brasil. Nas terras que hoje constituem nosso país, associadas à denominação tupi Pindorama, existiam inúmeros povos originários, com suas línguas, tradições e expressões culturais. Muitas dessas expressões foram destruídas ou profundamente modificadas durante a colonização. Outras resistiram e permanecem vivas, demonstrando que nossa história cultural não começou com a chegada dos europeus.
Cabe a nós, professores e demais educadores, mostrar às nossas crianças e adolescentes que essa constatação não diminui o valor ou a importância das manifestações folclóricas que trazemos em nosso DNA histórico. Somos, portanto, o resultado dessa mistura maravilhosa. E até mesmo quando fantasiamos nossas crianças gaúchas de caipiras nas festas juninas (o que teria o caipira a ver com uma festa de tradição religiosa no Sul do Brasil?), estamos demonstrando como as assimilações e adaptações fazem parte de nossa cultura “antropofágica”. Oswald de Andrade era realmente genial! Afinal de contas, ser brasileiro, do ponto de vista folclórico, cultural e histórico, é ser a soma de um mundo incrivelmente plural, rico e colorido.
Feliz Halloween!
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