OPINIÃO 139 - Tradicionalismo nas escolas. Não deveria ser o contrário?

 

TRADICIONALISMO NAS ESCOLAS. NÃO DEVERIA SER O CONTRÁRIO?

Leandro de Araújo

O governo do Estado sancionou recentemente a Lei nº 16.545/2026, originada do Projeto de Lei nº 233/2024, de autoria do deputado estadual Sergio Peres (Republicanos), que institui o Programa Estadual de Promoção da Cultura e das Tradições Gaúchas nas Escolas. A princípio, a iniciativa soa como um resgate identitário. Mas, ao olhar para os bastidores e para a parceria firmada com o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) por meio do programa "CTG na Escola" (desenvolvido em conjunto com a Secretaria da Cultura), não consigo evitar a pergunta: não deveria ser exatamente o contrário?

Em vez de levar o CTG para dentro da sala de aula através de uma lei, não seria mais lógico e produtivo levar as escolas e os jovens para dentro das entidades tradicionalistas? Afinal, se houve um dia em que os departamentos culturais, as "horas de estudos" e as bibliotecas foram a alma de um CTG, esse tempo, infelizmente, já passou. E faz tempo.

Sou da geração que recorda com saudade quando os departamentos culturais atuavam de forma orgânica e vibrante. Eram os departamentos mais importantes das entidades tradicionalistas. Mais importantes que as próprias invernadas de danças! Organizavam palestras com pesquisadores, promoviam debates sobre a história gaúcha e brasileira e mantinham bibliotecas abertas para pesquisa e rodas de conversas. Isso acontecia por vocação genuína, e não para cumprir uma agenda burocrática ou obrigatória para somar pontos em concursos. Hoje, o que vemos é o predomínio do espetáculo e da competição; o estudo aprofundado ficou escanteado.

Não! Não sou contra os concursos e festivais! Longe disso! Mas é justamente aí que mora o meu maior incômodo com a obrigatoriedade prevista em lei. O interesse verdadeiro pela cultura deveria florescer pelo encantamento pessoal, e não por imposição acadêmica ou curricular. Além disso, a parceria com o MTG e o viés do "CTG na Escola" me fazem questionar: qual recorte de "cultura gaúcha" será ensinado? O tradicionalismo institucional é um movimento social relativamente recente (datado do século XX) e não contempla a imensa pluralidade do nosso estado. Os quilombos, por exemplo, são muito mais antigos e estão tão enraizados na formação do RS quanto a estância. A utilização de mão de obra escravizada nas estâncias e, principalmente, nas charqueadas do Rio Grande do Sul ocorreu por cerca de 108 anos, abrangendo o período que vai de 1780 até 1888. Nesse contexto, além dos “peões”, também teremos espaço para “escravizados” como tipos característicos gaúchos? E a cultura açoriana marisqueira, de chapéu de palha e que em vez de cavalo, anda de barco? Ela é anterior à própria bombacha. E olha que nem falei dos povos originários. Nosso povo nativo também não é “gaúcho”? Essas vertentes terão espaço nesse programa oficial, ou vamos apenas "emetegeziar" as escolas com um viés folclórico e ufanista?

Não sou contra a valorização da tradição, mas creio que o caminho adotado pela lei é tortuoso, pois confunde tradição com tradicionalismo institucional (MTG). Em vez de um programa que dita símbolos e práticas, que tal preparar melhor os nossos professores de História e Literatura? Que tal instituirmos uma disciplina chamada História e Cultura do Rio Grande do Sul, com viés crítico e antropológico, que aborde desde os povos originários até a formação contemporânea? A escola deve ensinar a história real, não o manual do CTG.

Por fim, acho, no mínimo, irônico (e profundamente revelador) que o poder público, por meio de uma lei sancionada em 2026, esteja determinando que as escolas estaduais (que já enfrentam uma carência abissal de professores de disciplinas regulares como Matemática e Língua Portuguesa) assumam o papel de resgatar a função cultural que os próprios CTGs deixaram de exercer há décadas em nome da supervalorização da competição. O Estado está, com essa parceria, terceirizando a educação cultural para um movimento que terceirizou sua própria vocação de estudo em troca de holofotes e concursos.

Afinal, se o CTG virou palco e a escola vai virar tradicionalista, quem vai sobrar para ensinar os nossos jovens a pensar criticamente sobre o próprio chão que pisam?






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