CONTO 013 - A minhoca, o peixe e o homem

Era uma vez uma minhoca. 

Ela estava presa a um anzol.

Um peixe, ao aproximar-se, viu aquela delícia e comeu. Ela morreu.

Mas o peixe ficou preso no anzol. O homem o retirou da água e cortou sua cabeça. Ele morreu.

O homem, ao comer o peixe, engasgou-se com um espinho. Também morreu.

Em um lugar que parecia fora da realidade, além do tempo e do espaço, foi feito um julgamento para decidir quem merecia o paraíso e quem iria para o inferno. Estavam os três espíritos lado a lado, aguardando o veredito. O homem, com o olhar tristonho e a cabeça baixa, apenas suspirava profundamente. O peixe flutuava como se estivesse nadando melancolicamente no ar. A minhoca contorcia-se no chão sem conseguir sair do lugar, observada de cima pelo peixe e pelo homem.

O Juiz, um ancião de cabelos e barbas brancas, de pele clara e olhos azuis, vestindo uma túnica alvíssima, estava sentado à cabeceira de uma grande mesa. Ao seu lado, o promotor, um grande peixe de olhos redondos e brilhantes, ornado por escamas coloridas. Ambos rodeados por uma aura luminosa divinal, que deixava claro aos julgados o fato de estarem diante de seres realmente importantes e poderosos.

O silêncio da sala é quebrado quando o Juiz bate seu malhete na mesa.

- Estamos aqui para ouvir da promotoria suas acusações, para que eu possa, usando todo meu conhecimento, decidir de forma justa e imparcial o futuro destas almas desencarnadas.

A voz do Juiz era grave e seu rosto não esboçava qualquer sentimento. O ambiente parecia preencher com suas palavras, que eram seguidas de um eco musical. Ele seguiu sua fala, dirigindo-se agora ao promotor.

- Prezado promotor, o que tens a dizer com relação a este homem que aqui está esperando sua sentença?

O promotor, que até então permanecia calado, movimentando suas nadadeiras lentamente no ar, inicia sua explanação, falando com a calma das águas de um lago profundo e gelado.

- Este homem, meritíssimo, morreu tentando alimentar-se. Foi uma vítima das circunstâncias. Matou o peixe porque é da sua natureza usar seres inferiores, do ponto de vista da criação divina, como meio de subsistência. Recomendo sua absolvição, e abrir-lhe as portas do céu.

O Juiz ouviu em silêncio as palavras do promotor. Por fim, olhou o homem nos olhos, bateu o malhete na mesa e proferiu:

- Tu estavas cumprindo teu papel na Terra. Fizeste o que era esperado de alguém que, para saciar a fome, usaria aquilo que a própria Terra havia para oferecer. És superior ao peixe que matou e, por isso, o absolvo. Podes adentrar às portas do céu.

Ao findar o veredito, ouve-se o som de trombetas e grandes portas se abrem atrás da cadeira onde está sentado o ancião. Anjos se aproximam do homem e o levam através das portas celestiais, que voltam a fechar com um com uma pancada barulhenta.

- Sobre o peixe, o que tens a me dizer, promotor?

- Este animal cumpriu seu destino, meritíssimo. Morreu para servir ao homem, como todo ser inferior deve fazer. Matou a minhoca, mas não havia a intensão de comê-la, apenas estava atendendo o chamado de seus instintos. Recomendo sua absolvição, e o direito de adentrar às portas do céu.

O ser divinal passou uma das mãos pela barba branca, mirou os olhos do peixe, bateu o malhete e sentenciou:

- Não há nada mais correto que aceitar seu papel no mundo. Peixe, cumpriste aquilo para o qual estavas destinado. Mataste a minhoca para ser mais nutritivo aquele que servirias de alimento. És superior à minhoca que matou e, por isso, o absolvo. Podes adentrar às portas do céu.

Novamente as trombetas, as portas abrindo e, agora, um cardume de peixes iluminados se acercaram da alma escamosa, levando-a para o interior das portas celestiais.

- Finalmente, a minhoca. O que pode ser dito sobre este pequeno e frágil ser, promotor?

O grande peixe colorido ficou ainda mais sério. Franziu o cenho, mexeu em alguns papéis, respirou fundo e, finalmente, começou a falar.

- Meritíssimo, o que temos aqui é muito pior do que parece ser. Esta minhoca obviamente sabia que o peixe, ao vê-la, não resistira a seus instintos, tentando se alimentar. Ao fazer isso, seria capturado pelo homem que, servindo-se, poderia engasgar-se e morrer. Esta minhoca, que parece inofensiva, seduziu o peixe, sendo responsável por seu fim e, consequentemente, pela morte do homem. Recomendo sua condenação ao inferno, onde deve permanecer pela eternidade todo aquele que induz o homem a cometer tamanho erro.

O Juiz, muito sério, ergue-se de sua cadeira. Dá uma ajeitada na túnica, coça o queixo sob a barba, bate com força o malhete e profere:

- Minhoca, precisas ser punida que para outras minhocas entendam que a justiça existe para servir aqueles que a merecem. És culpada por oferecer-se. Até a forma com a qual se moves é uma provocação ao instinto do peixe e um perigo ao homem. Teria vergonha se tivesse uma filha que fizesse o que fazes. És inferior ao homem e ao peixe e, por isso, a condeno. Ganharás a porta do inferno, lugar onde devem permanecer as criaturas inferiores que acreditam que podem se igualar ao peixe e ao homem.

Por trás da pequena minhoca, lentamente abre uma porta de dobradiças barulhentas, por onde saía uma fumaça escura. Por ela saem diminutos diabinhos, ostentando pequenos chifres e armas. Com violência arrastaram a condenada ao inferno. Antes de passar pela porta, a minhoca ainda consegue olhar para trás e vê o Juiz e o promotor sorrindo. Ambos agora exibem pequenos chifres, iguais aos dos diabinhos, que permaneceram magicamente ocultos durante todo julgamento.

Quando a grande porta fecha, novamente a minhoca está no fundo do rio, presa a um anzol. Por traz de uma pedra, um grande peixe, de olhos famintos, a observa.


 


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