OPINIÃO 055 - Gaúchos de Semana Farroupilha e Campeiros de Apartamento

        Lembro que há alguns anos eu era um dos tantos críticos daquelas pessoas que se pilchavam apenas durante a Semana Farroupilha. Em outro momento, também via com maus olhos os tradicionalistas que se intitulavam “campeiros”, mas moravam na cidade e, vez por outra, encilhavam um cavalo para atirar um laço ou simplesmente montar. Hoje percebo o quanto era ingênuo! Eram conceitos livres de qualquer racionalização, movidos apenas por paixão e senso comum, premissas que não contribuem na formulação de ideias livres de parcialidade ou com isenção.

Há um fato que se repete todos os anos durante a Semana Farroupilha. Com as redes sociais incorporadas a pleno em nossas vidas, a coisa ficou ainda mais pública e evidente, porque o que era boca a boca, agora virou matéria para “curtir e compartilhar”. Leio centenas de publicações de “gauchões” criticando, de forma irônica ou negativa, os “gaúchos de Semana Farroupilha” ou “gaúchos de apartamento”, expressões com as quais se referem aqueles que esperam um ano inteiro para poder usar uma pilcha gaúcha no trabalho ou na escola, por exemplo. Curioso ver pessoas que se consideram tão gaúchas e tradicionalistas ignorarem completamente as três palavrinhas que estão em nosso pavilhão: LIBERDADE, IGUALDADE e HUMANIDADE. Segundo estes donos da verdade, a LIBERDADE para usar uma bombacha é restrita aos HUMANOS que são IGUAIS a eles. No mínimo curioso...

Considero lindo toda mobilização que faz as pessoas felizes. A Semana Farroupilha traz a todo Rio Grande do Sul uma oportunidade nova para ver as pessoas sorrindo. Escolas fazem movimentos novos, crianças que até então só se divertiam na frente de seus computadores e videogames vestem orgulhosos trajes típicos, empresas mudam totalmente sua rotina para permitir que os funcionários possam curtir a semana “com roupa de gaúcho”. Acho maravilhoso quando um colega, durante esta semana, vem me perguntar como se dá um nó de lenço ou se usa um chapéu!!! Este sentimento agrega, aproxima as pessoas, as coloca em uma mesma posição, abre espaço para novas discussões, abre os olhos para novos horizontes, novos patamares. Sejam bem-vindos todos os gaúchos de apartamento, de Semana Farroupilha, de Expointer, de Recife ou de Nova York! Eles são o aplauso de nossa música, a lágrima do poema. Quando penso em Semana Farroupilha, penso no pai que se esforça para pilchar seu filho pela primeira vez e levá-lo ao acampamento para poder ver um cavalo de perto. Vendo o sorriso de uma criança ao sentir-se gaúcho, me sinto orgulhoso de viver em um lugar que oferece isso entre tantas outras ofertas “globais” que assediam nossos pequenos.
 
Outro tema corrente é a controvérsia em torno da palavra “CAMPEIRO”. Afinal, o que é campeiro de verdade? Ouvimos o termo com frequência neste mês de setembro. É música campeira, poesia campeira, violão campeiro, comida campeira, bombacha campeira (lembrei-me de uma divertida paródia gravada pelos Garotos de Ouro do funk carioca “Le lek lek” que fala em “tranco bem campeiro”). E aí temos os protestos de pessoas que têm uma ligação mais íntima com o campo, tomando para si a posse e a legitimidade da expressão. Penso que o CAMPEIRO em questão é relacionado ao estilo, à estética ligada à origem. Serve como referência, ou mesmo, reverência. O gaúcho que mora na cidade e que vez por outra encilha um cavalo para atirar um laço, pilchado a capricho, pode não ser campeiro na sua essência, mas sente-se campeiro, e no sentir, está campeiro. Utiliza o referencial do campo para transformar-se, viver uma experiência diferente de sua realidade urbana cotidiana para ser feliz. E quando falamos em felicidade, quem somos nós para julgar os méritos? O homem que vive no campo, que produz, cria e campereia, não fica menos campeiro porque alguém da cidade o usa como referência.

Tanto o tradicionalismo purista quanto o anti-campeirismo urbano (fomentados através do Facebook, ferramenta mais globalizante que conheço) são excludentes, segregadores e pouco contribuem com a tradição ou com o campo. Falar mal do que se pilcha ocasionalmente ou daquele que reverencia o chamado “campeirismo” não traduz em verdade a palavra do maldizente, nem em mentira aquilo que condena. A verdade está em dar opções, mostrar outras facetas. O que mais tem o campo além do que tu reverencias? O que mais tu podes fazer pela tradição, além de pilchar-se uma vez por ano? Educar, sendo educado. Construir em vez de acabar com o sonho de alguém, apenas porque crê que sua verdade é absoluta.

A propósito, verdades absolutas ainda existem?




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Comentários

  1. Comparação são os surfistas alegretenses
    Estão lá eles, exercendo seu direito à liberdade de expressão, de parafinar o cabelo e andar carregando a prancha em plena rua das tropas, pés descalços e roupas emborrachadas nas barrancas do Ibirapuitã. Seus semblantes são de felicidade e isso atrai cada dia mais pessoas para seus rituais (volta e meia realizam um luau no breu da noite pampeana, repertório leve com toadas de reggae cheirando a maçanilha).
    Ademais, tem até lojinhas de moda praieira abrindo pelo calçadão, e isso movimentará a economia local! Também abriram algumas escolinhas de surf no Porto dos aguateiros, cada uma em uma modalidade, preparando os surfistinhas do futuro do Alegrete. E já saiu a primeira publicação sobre os heróis das maretas, fazendo uma retrospectiva de suas conquistas dessas águas revoltosas com suas biografias.
    Não é possível que com todo esse novo cenário da contemporaneidade da cultura fronteiriça ainda me venha alguém se achar na razão de criticar ou fazer deboches preconceituosos!

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    1. Mas fazem, Andréia... ou por despeito, ou por não entender como uma pessoa pode ser feliz fazendo uma coisa que não compreende, ou não "aceita".

      É a ditadura do EU e do MIM. EU tenho razão, EU digo o que é certo, e se não for bom para MIM, então não pode ser bom para mais ninguém.

      Vida longa aos surfistas do Alegrete e aos campeiros de Porto Alegre! E ao direito de escolher...

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  2. Sou filho de homem que veio do campo, Alegretense, um dos maiores declamadores deste chão que veio do campo, do Rincão do 28.
    Veio para cidade grande para tentar uma vida melhor lá na sua juventude más que nunca perdeu suas essências.
    Talvez de todos os filhos fui o mais distante da cultura gaúcha(ir a rodeios, declamar, dançar em invernadas...) meio na qual cresci vendo e vivenciando pelo meu pai, irmão e amigos chegado a eles com as mesmas culturas.
    Quantas e quantas vezes escutava que gaúcho de verdade é aquele que usa bombacha, bota e lenço no pescoço, que joga Truco e bebe "canha".
    Hoje me considero um "gaúcho de apartamento", não sou "campeiro", más, mesmo sem participar diretamente de eventos tradicionalistas, lida campeira.... na semana farroupilha e em outras oportunidades uso alpargata, bombacha "campeira" não por querer me tornar mais gaúcho, mais homem, mas para cultivar a cultura, pelo orgulho ao meu pai e a todos que carregam no sangue a cultura gaúcha.
    E lembrando que é considerado gaúcho, todo cidadão ou cidadã que nasce no Rio Grande, terra amada. Indiferente de sexualidade, crença ou raça!!!
    Respeito cada opinião, porém ainda há aqueles que pensam diferente e te tratam com inferioridade neste meio...
    O que falta é menos orgulho próprio e mais orgulho a este chão, nossa história. Mais respeito e menos desigualdade.

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