
ROSÁLIA
Leandro de Araújo
- Muito bem, Rosália. És uma verdadeira escritora! – falava a orgulhosa professora Vicentina Adelaide de Vasconcelos, dona da Cadeira Pública de Primeiras Letras Feminina, em Sorocaba.
Rosália Leite Penteado adorava a escola. Não gostava muito das disciplinas onde se aprendia prendas domésticas ou religião, mas se alegrava nas aulas de escrita e leitura. Aos doze anos já escolhia os próprios livros e escrevia seus primeiros poemas. Como sua habilidade para escrita era notória, a professora Vicentina não se furtava em permitir que Rosália ministrasse as aulas de primeiras letras às alunas novas da escola. Era com alegria imensa que ouvia as pequenas estudantes chamarem-na de professora. Aos catorze anos ensinava a ler e escrever até meninas mais velhas do que ela.
Contudo, sua alegria não duraria por muito mais tempo que já havia durado. Rosália era filha de um comerciante em Sorocaba. A cidade vivia cheia de tropeiros e negociantes de gado. Em uma gelada manhã de agosto, um criador de gado do sul, de pele queimada do sol e da estrada, chegou no estabelecimento da família Penteado e ofereceu trinta bois ao proprietário em troca da permissão de casar Rosália com seu filho mais velho, em uma estância na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O velho Penteado não queria uma filha que soubesse ler, queria uma que valesse trinta bois. E desta forma, a linda menina sorocabana que sonhava ser professora, foi colocada sob o toldo de uma carreta puxada a bois e viajou por mais de quatro meses até chegar em uma estância de criação de gado no sul do Brasil. Meses de frio, solidão e silêncio. Na mala, além de algumas mudas de roupa, seus livros e o sofrimento por se ver obrigada a viver uma vida que jamais desejara. Casou-se com Licurgo Prates, um homem que já passava dos quarenta quando ela mal tinha completado quinze anos – e com quem havia trocado poucas palavras antes da boda. O homem que a havia comprado em Sorocaba morreu tragicamente em um acidente em uma comitiva pouco depois do casamento. Em seguida a sogra também faleceu, levada pelo frio do inverno.
Na primeira noite como mulher casada, ela chorou. Na segunda, também. Na terceira, entendeu que o choro não mudava nada. Aprendeu a calar. Servia ao marido como quem cumpre uma obrigação da qual não podia sequer questionar. Em 1863 deu à luz a Antenor Prates. Quatro anos depois, à Helena Prates.
Não se permitia ser feliz com a vida que levava, porém, jamais se deixava ver chorar. Levava seu sofrimento dentro de si, como quem guarda no coração uma pedra. E uma pedra incandescente.
Este texto é um fragmento experimental do romance "Espinilho", de Leandro de Araújo, que ainda não foi lançado. Aguardem!!!
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