OS GAÚCHOS E A IA - Um conto sobre tradição, tecnologia e outras teimosias.
Leandro de Araújo
Ao ouvir as
batidas na porta, ele ergue as sobrancelhas grossas sem sequer tirar os olhos
da cuia de chimarrão. Tenta levantar-se, mas a primeira tentativa foi em vão.
Estava sentado em uma pequena banqueta de três pernas, com um assento de couro
coberto por um pelego de ovelha dobrado. Novamente as batidas. Com os lábios apertados
ao redor do bocal da bomba do mate, emite um grunhido pelo nariz, que tanto
poderia ser comemorando a chegada da visita, quanto um sinal de insatisfação.
De qualquer forma, faz um novo esforço e ergue-se. Vai arrastando as surradas
alpargatas em direção à porta. Vestia uma bombacha larga com as pernas
arremangadas até os joelhos e uma camisa branca aberta até o peito. Apesar da
idade avançada, ainda mantinha a cabeça erguida e a pose máscula, mesmo que
para isso tentasse disfarçar a proeminente barriga. A barba já estava bastante
grisalha, assim como os cabelos, cuidadosamente penteados para trás, molhados
de brilhantina.
Ao chegar na
porta, mesmo sabendo quem estava do outro lado, cola um dos ouvidos na madeira
e fala em tom alto e ríspido:
- Quem é lá?
Do outro lado, em um tom entre alegre e sarcástico, a resposta veio imediatamente:
- Sou eu,
animal!
A porta abre.
Do lado de fora, o homem com uma farta cabeleira branca sob uma boina preta tem
seu sorriso escondido por um grosso bigodão, que ainda tinha mais fios escuros
que brancos. Vestia camisa preta, bombachas largas e botas. No pescoço, um
chamativo lenço vermelho à moda farroupilha. Os homens se miram por alguns
segundos, até que o primeiro brada com sua voz alta e metálica:
- Seu cachorro!
- Matungo
velho! - responde o outro instantaneamente.
- Matungo é tu,
chimango de uma figa!
- É tu,
pica-fumo que não serve nem para fazer fogo!
Após a troca
intensa de predicados, os gaúchos se abraçam de forma efusiva onde, junto dos
sonoros tapas que davam nas costas um do outro, ainda se ouvia, entre sorrisos,
alguns xingamentos.
- Como estás,
doutor? Ainda com a salinha cheia de louco? - questiona o segundo, já entrando
na curiosa sala, que se revelava uma mistura de consultório psicológico com
galpão de estância, tendo ao lado do divã forrado com pelego, um cavalete de
madeira onde se apoiavam algumas peças de uma encilha e um laço velho
pendurados.
- Qual nada,
Guri. Me aposentei antes de acabar pegando a loucura de alguém.
- E a Lindaura,
te casaste com a prenda?
- Aquela
ingrata me abandonou faz alguns anos. Foi ser recepcionista do consultório de
um dentista de Florianópolis. A última notícia que tive dela é que viraram
hippies e foram morar na Guarda do Embaú. Me disse que nunca mais voltaria para
Bagé.
- Mas que
barbaridade!
- E tu, chê?
Fazendo muito show? Já desmamou aquele teu filho... Como era mesmo o nome?
Licurgo! - perguntou o primeiro gaúcho, de volta ao seu banquinho, onde agora picava
fumo em corda para fazer um palheiro.
- Ando nada! O
pessoal só quer saber de piada pela internet. Ninguém mais quer gastar os pilas
com teatro. O Licurgo foi descoberto por um caça talentos da televisão. É o
galã da novela das sete. Tem mais namoradas e pretendentes que filho de
estancieiro. Não assume que foi gaúcho emo em Uruguaiana e fala mais chiado que
chaleira em chapa quente, mas ainda usa os tênis de cano longo para não
desperdiçar os que já tinha. Criou moda. É um visionário.
Os dois gaúchos sentaram em silêncio. Por alguns minutos os únicos sons que se ouviam naquela sala eram o ronco da cuia de mate e os pigarros do Analista de Bagé. Não demorou muito e novas batidas à porta foram ouvidas.
- Deve ser ele.
- sentenciou o Guri de Uruguaiana.
O bageense
ergue-se e, antes mesmo de sair do lugar, a porta do consultório abre com um
safanão dado por um terceiro gaúcho que chegava. Por ela entra uma figura
imponente, arrastando as esporas que enfeitavam as bonitas e bem lustradas botas
de cano alto. Usava bombacha estreita, um cinturão com adornos de prata e usava
uma camisa azul celeste. No pescoço, um esvoaçante lenço branco. Na cabeça, um
bonito chapéu de abas largas fazia sombra ao rosto magro e sorridente, coberto
por uma barba de três dias bem recortada.
- Meus
queriiiiiiiidos!!! - cumprimenta este último.
- Nem vem com
essa de “queriiiiidos”, Nêgo Véio! Todo mundo sabe que tu falas isso quando não
lembras mais o nome das pessoas com quem está falando. - retrucou o uruguaianense sem conseguir esconder o sorriso.
Nêgo Véio do
Alegrete, apesar do nome, aparentava ser o mais novo dos três. Ainda conseguia
manter um pouco do físico atlético. A melena, presa em um rabo de cavalo para
trás do chapéu, ajudava a aumentar o ar jovial. Sempre sorridente, abre os
braços como querendo abraçar o mundo e exclama como sua voz grave e musical:
- Como estão,
gaúchos e gaúchas de todas as quer...
Não conseguiu
terminar a frase, pois o laço do Analista de Bagé cruza o ar e envolve os
braços do alegretense, imobilizando-o. Em seguida, sem protestar, se deixa
arrastar até onde estavam sentados os primeiros. Se abanca num cepo de madeira
e aceita um mate. Isso depois do bageense declarar que “só mateia de pé com
cavalo”. O do Alegrete puxa uma pequena adaga com cabo de prata que estava
presa ao cinto e começa a limpar as unhas como se isso fosse a coisa mais
natural a se fazer em uma situação dessas.
- Vem mais
alguém? - pergunta este último.
- E tu esperas
quem? O Gildo? O Teixeirinha? O Paixão? Não sobrou mais ninguém, Nêgo Véio. Só
nós estamos aqui para resistir. - pronunciou o Analista, enquanto enrolava o laço novamente para pendurar no cavalete.
- A coisa está
mais braba que cruzeira pisada, meus queridos. E fedendo mais que zorrilho
acoado. Se não fizermos alguma coisa logo, até nós seremos substituídos pela
tal inteligência artificial. - fala o alegretense,
sem parar de limpar as unhas com a ponta de sua faca.
O Analista,
depois de encobrir toda sala com uma densa névoa formada pela fumaça do seu
palheiro, declara que marcou aquela reunião justamente para decidirem o que
fazer sobre o assunto. Relata que está se sentindo mais inútil que sal fino em
churrasco e que, se tudo continuar como está, vai acabar fazendo chimarrão em
uma cuia da Stanley. Diz que já havia recebido mensagens de alguns antigos
pacientes que trocaram a terapia do joelhaço por uma conversa amigável com o
Chat GPT. Imagine só!
O Guri também
expôs sua preocupação. Que andou escrevendo algumas piadas do show com ajuda de
Inteligência Artificial e que - neste momento baixou a cabeça, olhou para os lados
e sussurrou – a piazada se mija de dar risada com essas piadas artificiais, que
andam melhores que as suas. Nem a Sílvia Helena quer saber mais de suas
paródias com o Canto Alegretense, pois as piadas de IA fazem ela rachar o bico
de tanto rir. Que barbaridade!
O Nêgo Véio,
que não gostava de jeito nenhum de ficar para trás, contou que no Alegrete, até
nas campereadas as gurias estão pegando receitas da culinária campeira com
chatbot, e que no último final de semana comeu um Tornedor de Bago de Touro ao
Molho Roti em uma castração, ocorrida em uma estância no Passo Novo, que foi
servido harmonizado com vinho argentino. Um escândalo, porque todo mundo sabe
que vinho bom é produzido em Bento Gonçalves ou em Encruzilhada.
- Mas que
barbaridade! - repete o Guri, depois de um longo suspiro que fez tremer o seu
bigodão escabelado. - Temos que fazer algo, senão até a Carta de Princípios do
MTG vai ser substituída por um prompt.
Nisso, o
Analista se ergue em um salto só, com um relho em punho no braço erguido, e anuncia
que um grande movimento contra o uso de Inteligência Artificial na tradição deve
iniciar de imediato. Que todos os bombachudos devem marchar em direção à Bagé
para fazer uma grande concentração contra a tecnologia no gauchismo, pois,
segundo ele, é melhor ser um bacudo ao natural que um inteligente de proveta.
- Se a resistência não nascer na campanha, não brota.
- sentenciou o bageense.
Após esta fala,
o Guri e o Nêgo Véio ficam em silêncio por alguns segundos, até que o
uruguaianense se pronuncia:
- Eu acho que para
ser bem gaúcha, dos quatro costados mesmo, essa manifestação teria que
acontecer na cidade mais importante da fronteira. E ninguém aqui discorda que
esse lugar é Uruguaiana, terra da Califórnia da Canção. Ademais, é na fronteira onde se decide quem entra ou não no Rio
Grande.
- Os amigos
devem ter tomado mate com mio-mio. Todo o universo sabe que o Baita Chão, a
Capital Farroupilha, o Alegrete grande, é o lugar ideal para fazermos esse
movimento. Terra do Osvaldo Aranha, do Nico Fagundes e do Cuiúdo do Alegrete! O
que pode ser mais gaúcho do que isto? O
Alegrete não precisa ser escolhido. Ele já é.
A discussão
segue quente por horas. Ameaças de lado a lado, gritaria e faca em punho. Os
três estavam armados com os melhores argumentos para defenderem suas
querências. Chegaram a pensar em decidir tudo em uma partida de truco, tava ou
em um torneio de chula. Mas nessa altura do campeonato nenhum dos três arredava
pé de suas convicções, ou acreditava que poderia vencer os demais sem
trapacear. Uma guerra estava prestes a estourar, desta vez entre Alegrete, Bagé
e Uruguaiana.
Quando os
ânimos começam a arrefecer, e joelhos e ciáticos começam a doer, os três sentam novamente na roda de mate, até que o Guri de
Uruguaiana, entre irônico e sério, puxa os dois amigos pelas camisas,
aproximando-os de si e fala baixinho, olhando para os lados com desconfiança:
- E se
perguntássemos para o Chat GPT?
Um silêncio
constrangedor toma conta do lugar. Permanecem imóveis por alguns segundos, olhando
para o chão. Para eles, pareciam horas! Até que o Nêgo Véio do Alegrete põe a
mão no bolso e diz, com um largo sorriso:
- Mas meus
queriiiiidos! Por que não falaram antes? Deixa que eu pesquiso aqui no meu
iPhone.
Ele já tinha o
aplicativo instalado.




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