CONTO 025 - OS GAÚCHOS E A IA - Um conto sobre tradição, tecnologia e outras teimosias

OS GAÚCHOS E A IA - Um conto sobre tradição, tecnologia e outras teimosias.

Leandro de Araújo 


Ao ouvir as batidas na porta, ele ergue as sobrancelhas grossas sem sequer tirar os olhos da cuia de chimarrão. Tenta levantar-se, mas a primeira tentativa foi em vão. Estava sentado em uma pequena banqueta de três pernas, com um assento de couro coberto por um pelego de ovelha dobrado. Novamente as batidas. Com os lábios apertados ao redor do bocal da bomba do mate, emite um grunhido pelo nariz, que tanto poderia ser comemorando a chegada da visita, quanto um sinal de insatisfação. De qualquer forma, faz um novo esforço e ergue-se. Vai arrastando as surradas alpargatas em direção à porta. Vestia uma bombacha larga com as pernas arremangadas até os joelhos e uma camisa branca aberta até o peito. Apesar da idade avançada, ainda mantinha a cabeça erguida e a pose máscula, mesmo que para isso tentasse disfarçar a proeminente barriga. A barba já estava bastante grisalha, assim como os cabelos, cuidadosamente penteados para trás, molhados de brilhantina.

Ao chegar na porta, mesmo sabendo quem estava do outro lado, cola um dos ouvidos na madeira e fala em tom alto e ríspido:

- Quem é lá?

Do outro lado, em um tom entre alegre e sarcástico, a resposta veio imediatamente:

- Sou eu, animal!

A porta abre. Do lado de fora, o homem com uma farta cabeleira branca sob uma boina preta tem seu sorriso escondido por um grosso bigodão, que ainda tinha mais fios escuros que brancos. Vestia camisa preta, bombachas largas e botas. No pescoço, um chamativo lenço vermelho à moda farroupilha. Os homens se miram por alguns segundos, até que o primeiro brada com sua voz alta e metálica:

- Seu cachorro!

- Matungo velho! - responde o outro instantaneamente.

- Matungo é tu, chimango de uma figa!

- É tu, pica-fumo que não serve nem para fazer fogo!

Após a troca intensa de predicados, os gaúchos se abraçam de forma efusiva onde, junto dos sonoros tapas que davam nas costas um do outro, ainda se ouvia, entre sorrisos, alguns xingamentos.

- Como estás, doutor? Ainda com a salinha cheia de louco? - questiona o segundo, já entrando na curiosa sala, que se revelava uma mistura de consultório psicológico com galpão de estância, tendo ao lado do divã forrado com pelego, um cavalete de madeira onde se apoiavam algumas peças de uma encilha e um laço velho pendurados.

- Qual nada, Guri. Me aposentei antes de acabar pegando a loucura de alguém.

- E a Lindaura, te casaste com a prenda?

- Aquela ingrata me abandonou faz alguns anos. Foi ser recepcionista do consultório de um dentista de Florianópolis. A última notícia que tive dela é que viraram hippies e foram morar na Guarda do Embaú. Me disse que nunca mais voltaria para Bagé.

- Mas que barbaridade!

- E tu, chê? Fazendo muito show? Já desmamou aquele teu filho... Como era mesmo o nome? Licurgo! - perguntou o primeiro gaúcho, de volta ao seu banquinho, onde agora picava fumo em corda para fazer um palheiro.

- Ando nada! O pessoal só quer saber de piada pela internet. Ninguém mais quer gastar os pilas com teatro. O Licurgo foi descoberto por um caça talentos da televisão. É o galã da novela das sete. Tem mais namoradas e pretendentes que filho de estancieiro. Não assume que foi gaúcho emo em Uruguaiana e fala mais chiado que chaleira em chapa quente, mas ainda usa os tênis de cano longo para não desperdiçar os que já tinha. Criou moda. É um visionário.

Os dois gaúchos sentaram em silêncio. Por alguns minutos os únicos sons que se ouviam naquela sala eram o ronco da cuia de mate e os pigarros do Analista de Bagé. Não demorou muito e novas batidas à porta foram ouvidas.

- Deve ser ele. - sentenciou o Guri de Uruguaiana.

O bageense ergue-se e, antes mesmo de sair do lugar, a porta do consultório abre com um safanão dado por um terceiro gaúcho que chegava. Por ela entra uma figura imponente, arrastando as esporas que enfeitavam as bonitas e bem lustradas botas de cano alto. Usava bombacha estreita, um cinturão com adornos de prata e usava uma camisa azul celeste. No pescoço, um esvoaçante lenço branco. Na cabeça, um bonito chapéu de abas largas fazia sombra ao rosto magro e sorridente, coberto por uma barba de três dias bem recortada.

- Meus queriiiiiiiidos!!! - cumprimenta este último.

- Nem vem com essa de “queriiiiidos”, Nêgo Véio! Todo mundo sabe que tu falas isso quando não lembras mais o nome das pessoas com quem está falando. - retrucou o uruguaianense sem conseguir esconder o sorriso.

Nêgo Véio do Alegrete, apesar do nome, aparentava ser o mais novo dos três. Ainda conseguia manter um pouco do físico atlético. A melena, presa em um rabo de cavalo para trás do chapéu, ajudava a aumentar o ar jovial. Sempre sorridente, abre os braços como querendo abraçar o mundo e exclama como sua voz grave e musical:

- Como estão, gaúchos e gaúchas de todas as quer...

Não conseguiu terminar a frase, pois o laço do Analista de Bagé cruza o ar e envolve os braços do alegretense, imobilizando-o. Em seguida, sem protestar, se deixa arrastar até onde estavam sentados os primeiros. Se abanca num cepo de madeira e aceita um mate. Isso depois do bageense declarar que “só mateia de pé com cavalo”. O do Alegrete puxa uma pequena adaga com cabo de prata que estava presa ao cinto e começa a limpar as unhas como se isso fosse a coisa mais natural a se fazer em uma situação dessas.

- Vem mais alguém? - pergunta este último.

- E tu esperas quem? O Gildo? O Teixeirinha? O Paixão? Não sobrou mais ninguém, Nêgo Véio. Só nós estamos aqui para resistir. - pronunciou o Analista, enquanto enrolava o laço novamente para pendurar no cavalete.

- A coisa está mais braba que cruzeira pisada, meus queridos. E fedendo mais que zorrilho acoado. Se não fizermos alguma coisa logo, até nós seremos substituídos pela tal inteligência artificial. - fala o alegretense, sem parar de limpar as unhas com a ponta de sua faca.

O Analista, depois de encobrir toda sala com uma densa névoa formada pela fumaça do seu palheiro, declara que marcou aquela reunião justamente para decidirem o que fazer sobre o assunto. Relata que está se sentindo mais inútil que sal fino em churrasco e que, se tudo continuar como está, vai acabar fazendo chimarrão em uma cuia da Stanley. Diz que já havia recebido mensagens de alguns antigos pacientes que trocaram a terapia do joelhaço por uma conversa amigável com o Chat GPT. Imagine só!

O Guri também expôs sua preocupação. Que andou escrevendo algumas piadas do show com ajuda de Inteligência Artificial e que - neste momento baixou a cabeça, olhou para os lados e sussurrou – a piazada se mija de dar risada com essas piadas artificiais, que andam melhores que as suas. Nem a Sílvia Helena quer saber mais de suas paródias com o Canto Alegretense, pois as piadas de IA fazem ela rachar o bico de tanto rir. Que barbaridade!

O Nêgo Véio, que não gostava de jeito nenhum de ficar para trás, contou que no Alegrete, até nas campereadas as gurias estão pegando receitas da culinária campeira com chatbot, e que no último final de semana comeu um Tornedor de Bago de Touro ao Molho Roti em uma castração, ocorrida em uma estância no Passo Novo, que foi servido harmonizado com vinho argentino. Um escândalo, porque todo mundo sabe que vinho bom é produzido em Bento Gonçalves ou em Encruzilhada.

- Mas que barbaridade! - repete o Guri, depois de um longo suspiro que fez tremer o seu bigodão escabelado. - Temos que fazer algo, senão até a Carta de Princípios do MTG vai ser substituída por um prompt.

Nisso, o Analista se ergue em um salto só, com um relho em punho no braço erguido, e anuncia que um grande movimento contra o uso de Inteligência Artificial na tradição deve iniciar de imediato. Que todos os bombachudos devem marchar em direção à Bagé para fazer uma grande concentração contra a tecnologia no gauchismo, pois, segundo ele, é melhor ser um bacudo ao natural que um inteligente de proveta.

- Se a resistência não nascer na campanha, não brota. - sentenciou o bageense.

Após esta fala, o Guri e o Nêgo Véio ficam em silêncio por alguns segundos, até que o uruguaianense se pronuncia:

- Eu acho que para ser bem gaúcha, dos quatro costados mesmo, essa manifestação teria que acontecer na cidade mais importante da fronteira. E ninguém aqui discorda que esse lugar é Uruguaiana, terra da Califórnia da Canção. Ademais, é na fronteira onde se decide quem entra ou não no Rio Grande.

- Os amigos devem ter tomado mate com mio-mio. Todo o universo sabe que o Baita Chão, a Capital Farroupilha, o Alegrete grande, é o lugar ideal para fazermos esse movimento. Terra do Osvaldo Aranha, do Nico Fagundes e do Cuiúdo do Alegrete! O que pode ser mais gaúcho do que isto? O Alegrete não precisa ser escolhido. Ele já é.

A discussão segue quente por horas. Ameaças de lado a lado, gritaria e faca em punho. Os três estavam armados com os melhores argumentos para defenderem suas querências. Chegaram a pensar em decidir tudo em uma partida de truco, tava ou em um torneio de chula. Mas nessa altura do campeonato nenhum dos três arredava pé de suas convicções, ou acreditava que poderia vencer os demais sem trapacear. Uma guerra estava prestes a estourar, desta vez entre Alegrete, Bagé e Uruguaiana.

Quando os ânimos começam a arrefecer, e joelhos e ciáticos começam a doer, os três sentam novamente na roda de mate, até que o Guri de Uruguaiana, entre irônico e sério, puxa os dois amigos pelas camisas, aproximando-os de si e fala baixinho, olhando para os lados com desconfiança:

- E se perguntássemos para o Chat GPT?

Um silêncio constrangedor toma conta do lugar. Permanecem imóveis por alguns segundos, olhando para o chão. Para eles, pareciam horas! Até que o Nêgo Véio do Alegrete põe a mão no bolso e diz, com um largo sorriso:

- Mas meus queriiiiidos! Por que não falaram antes? Deixa que eu pesquiso aqui no meu iPhone.

Ele já tinha o aplicativo instalado.

  

Nota do autor: Os personagens Analista de Bagé, criação de Luis Fernando Verissimo, Guri de Uruguaiana, criação de Jair Kobe, e Nêgo Véio, criação de Neto Fagundes, não foram criados por mim e pertencem a seus respectivos autores. Este conto é uma obra inédita, sem fins comerciais, que os utiliza exclusivamente como homenagem respeitosa aos seus criadores, artistas que nos brindaram com figuras fictícias tão marcantes e queridas do imaginário gaúcho.






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