A MENINA QUE PODIA VOAR
Como fazia todos os dias, Júlia acordou às seis e meia para se arrumar e ir à escola. A música do despertador do celular de sua mãe, no quarto ao lado, a alertou. Ela abriu os olhos e ficou olhando para o teto, esperando a mamãe entrar no quarto e lhe dar o beijo de bom dia.
Tinha oito anos e frequentava o segundo
ano da escola que ficava próxima à sua casa. Era um pouco mais baixa que a
maioria das meninas de sua idade. Possuía um sorriso aberto e fácil, que, junto
de seus olhos castanho-esverdeados e o nariz arredondado, formavam um belo e
redondo rosto de menina sapeca. Cabelos compridos e castanhos como os de sua
mãe. Os olhos indiáticos havia herdado do pai, de quem não lembrava, pois ele
fora embora quando ela ainda era um bebê.
Já havia passado mais tempo que o
habitual e nada de beijo de bom dia. Nem de sua mãe. A música do telefone
cessara e agora um silêncio perturbador preenchia todos os espaços do pequeno
quarto. Nem os passarinhos, que a esta hora já deveriam estar em uma alegre e
barulhenta algazarra, pareciam ter despertado naquela manhã de segunda-feira.
Aquele silêncio estranho e a incomum
ausência de sua mãe a deixaram nervosa, mas Júlia fechou os olhos para
descansar mais um pouco, imaginando que a mamãe estava fazendo o mesmo, ficando
mais uns minutinhos na cama. Ela percebia que a mãe andava cansada. Acordava
todos os dias tão cedo para prepará-la para a escola e depois ia direto para o
trabalho. Raramente a via descansar. Muitas vezes tinha de fazer um esforço
enorme para conseguir atender seus pedidos e brincar um pouco. Normalmente
mamãe a pegava na escola no final da tarde, fazia alguma coisa para comerem,
tomava um banho e logo deitava para dormir.
Depois de alguns minutos aguardando sem
que nada acontecesse, Júlia decidiu levantar. Precisava saber o que estava
acontecendo. Será que sua mãe dormiu novamente?
Esticou-se toda, numa preguiça gostosa e,
quando tentou sentar na cama, algo muito, mas muito estranho mesmo estava
acontecendo.
Júlia não estava na cama. Estava ao lado
dela. Não no chão, como seria o óbvio. Estava sentada no ar, flutuando como um
balão de gás. Sentiu seu coração acelerar, sem entender direito o que estava
acontecendo. Sua pulsação fazia tremer cada unicórnio azul de seu pijama rosa e
sua respiração poderia ser ouvida do lado de fora da janela do quarto. Chamou
por sua mãe uma, duas, dez vezes! Não houve resposta.
Era impossível tocar o chão. A menina
pedalava no ar como se estivesse boiando em uma piscina imaginária, cujo fundo
não podia tocar. Quanto mais se esforçava para tocar o piso do quarto, mais
voltas dava no ar.
A claridade que entrava pelas frestas da
janela permitia perceber que o sol já estava brilhando alto. Por quanto tempo
estivera ali flutuando? Não sabia responder. Tentou erguer-se, instintivamente
procurando calçar os chinelos que repousavam ao lado da cama, mas foi inútil.
Por mais que se esforçasse, não conseguia baixar, ficando no máximo na mesma
altura que seu colchão, cerca de meio metro acima do chão. Respirou fundo e
olhou para a porta, desejando muito passar por ela e deixar aquele cômodo, despertar
daquele pesadelo. Então, percebeu que seu corpo se movia suavemente em direção
à saída do quarto.
Transpôs lentamente a porta, sempre no
ar. Atravessou a peça maior da casa, que fazia as vezes de cozinha e sala de
estar, até chegar à porta do quarto de sua mãe. Sem deixar de flutuar por um
momento sequer, bateu. Algo a fazia sentir que ninguém responderia, e isso se
confirmou. Precisou se equilibrar no ar e se curvar um pouco para pegar a
maçaneta. Ao entrar no cômodo, percebeu que estava vazio. Tudo exatamente
normal como deveria estar, apenas sem a presença de sua mãe. As roupas de cama
remexidas, o telefone sobre o criado-mudo ligado ao carregador e a roupa do
trabalho da mamãe dobrada em cima de uma cadeira.
Júlia queria gritar. Sair de casa e
mostrar para todo mundo o que era capaz de fazer. Caraca! Estava voando! Isso
deveria ser algo muito legal! Mas não da forma como estava acontecendo. Sentiu
uma solidão que nunca havia sentido. E essa mistura de sentimentos, tão
poderosa e completamente só, estava a deixando maluca.
Olhou para a porta da rua e desejou
alcançá-la. Imediatamente começou a flutuar na sua direção, onde permaneceu em
silêncio por alguns minutos, com uma mão segurando a chave e a outra espalmada
contra o vidro. Sem saber por quanto tempo ficou nessa posição, girou a chave e
deixou o ar fresco da manhã tocar seu rosto, balançar seus cabelos.
Antes mesmo de desejar sair, já estava
flutuando até a rua. Apenas uma brisa suave parecia trazer certo movimento
àquele quadro. O bairro suburbano em que morava, com suas casas baixas e
simples, muitas árvores nos jardins e canteiros centrais, estava parecendo uma
cidade fantasma. Tudo exatamente como deveria ser, apenas estranhamente vazio
de pessoas, animais, carros.
Flutuou suavemente até a esquina mais
próxima e olhou para os dois lados, procurando alguém que pudesse ajudá-la a
tentar entender o que estava acontecendo. Não havia ninguém. Júlia, se
conseguisse, sentaria no chão e choraria, mas sequer conseguia tocar as pontas
dos dedos no solo. E para complicar tudo, sentia o estômago doer de fome.
Preciso comer alguma
coisa, pensou. E antes mesmo de lamentar o
fato de sua mãe não estar ali para preparar o lanche, deu-se conta de que, como
não havia ninguém em lugar algum, poderia fazer o que quisesse. Qualquer coisa!
Não seria repreendida ou cobrada. Nada de castigos ou ralhos, apenas desejar e
fazer. E voando, o que seria muito mais divertido.
Voou até uma padaria que ficava próxima à
sua casa. Era uma loja pequena, que atendia basicamente apenas as pessoas
daquela vizinhança. Havia apenas um balcão de atendimento e algumas prateleiras
com biscoitos e pães. Alguns chocolates e salgadinhos em uma gôndola próxima ao
caixa e um balcão refrigerado com refrigerantes e achocolatados. Entrou voando
pela porta e atacou com fúria nervosa todos os chocolates e salgadinhos que
conseguiu alcançar na parte de cima da gôndola. Comeu o máximo que pôde, praticamente
empurrando goela abaixo com ajuda de algumas caixinhas de achocolatado.
Durante todo o dia, Júlia foi dona de seu
mundo. Esteve no maior número de lugares que conseguiu e aproveitou ao máximo.
Voou até cada playground que conhecia e brincou em todos os brinquedos que era
possível. E isso tudo sem ter que esperar a vez ou dividir com ninguém. Pela
primeira vez ficou na parte de cima da gangorra, sem que nenhuma pessoa
precisasse ficar fazendo peso no outro lado. No balanço, quem balançava era
ela, pois não precisava ficar sentada no assento, apenas pairava sobre ele. No
escorrega, mesmo que só conseguisse escorregar até a metade, tudo bem, estava
se divertindo da mesma maneira. Pela primeira vez conseguiu subir na parte mais
alta do trepa-trepa sem medo, sabendo que se caísse não iria se machucar, uma
vez que não tinha como chegar ao chão.
Em seguida, voou até o centro da cidade,
onde entrou em todas as lojas que gostava e provou todas as roupas que pôde.
Trocou seu pijama rosa por uma blusinha branca estampada na frente com um
unicórnio gigante e sorridente, uma linda saia rodada rosa-pink e sandálias
coloridas. Na cabeça, uma tiara brilhante, com orelhinhas e um chifre de
unicórnio bem no centro.
Assim seguiu durante todo o dia. Quando
tinha fome, entrava em uma sorveteria ou confeitaria e se fartava. Se ficava
cansada, deitava no ar, à sombra de uma árvore, e ficava assim, flutuando e
olhando para o céu. A única coisa que não passava era a sensação desconfortável
de estar sozinha. À medida que o dia ia passando e o final da tarde se
aproximava, Júlia sentia com mais intensidade a falta de outras pessoas com
quem pudesse compartilhar sua incrível habilidade. Ficou imaginando a cara de
suas colegas de escola se pudessem vê-la voando! E seus primos! Seria demais!
Mas de quem mais sentia falta mesmo era de sua mãe, sua melhor amiga.
À medida que a noite foi se aproximando,
a pequena menina voadora sentiu uma falta enorme das suas coisas em seu quarto,
do carinho e da comidinha feitos por sua mãe. Experimentou uma saudade tão
grande quanto dolorosa. Foi nesse momento que seu corpo começou a se deslocar
suavemente no ar em direção à sua casa, deixando apenas o rastro de suas
lágrimas que iam ficando pelo caminho.
Já era noite quando chegou à porta de sua
casa. Já não sentia alegria em poder flutuar livremente por aí, apenas solidão.
Deitada de costas, com os braços cruzados sob a nuca, nem precisou olhar para
onde estava indo. Reconheceu seu quarto apenas pelo calor e segurança que ele
lhe transmitia. Estava tudo ali do mesmo jeito. A cama pequena, a escrivaninha
com seu material escolar, o roupeiro, o baú de brinquedos. Uma única janela
para a rua, coberta por uma cortina onde havia a enorme estampa de uma menina brincando
com seu cachorro. Tudo que Júlia mais amava. Contudo, acompanhados agora da
sensação de vazio e tristeza, de desamparo e medo. Permaneceu deitada no ar, no
meio do quarto, olhando para o teto e pensando em tudo que acontecera naquele
dia.
A pequena menina adormeceu assim. Mesmo
com os olhos fechados, seu sono era cortado por profundos suspiros.
Às seis e meia, num sobressalto, Júlia
acordou ao ouvir o telefone de sua mãe despertar no quarto ao lado. Antes mesmo
de a música cessar, a porta se abriu e ela viu, mesmo na penumbra, sua mãe se
aproximando. Ela lhe deu bom dia, acompanhado de um estalado beijo na testa e daquele
sorriso inconfundível.
— Vamos acordar, sua preguiçosa? Está na
hora de ir à escola.
Mamãe saiu do quarto para preparar o café
e, com o coração batendo acelerado, a menina sentiu contra seu corpinho a
acolhedora sensação do colchão. Rapidamente jogou as pernas para fora da cama e
sentiu seus pés caírem sobre os chinelos, que repousavam aguardando mais uma
manhã.
Só então percebeu que tudo não passara de
um sonho maluco. Ou nem tanto. O que aconteceu naquele estranho mundo onde ela
podia voar, fazer coisas incríveis, como se divertir em um parque ou vestir
roupas legais e comer sorvete, era o que fazia sempre que possível com a mamãe.
Júlia correu para fora do quarto e
abraçou com força sua mãe, que estava na cozinha preparando o café. Grossas
lágrimas escorriam de seus olhos e molhavam o enorme sorriso que parecia não se
desfazer por nada neste mundo.
Mamãe não entendeu o que estava
acontecendo, mas ao perceber que algo muito importante se passava com Júlia,
retribuiu o abraço. Lágrimas vieram aos seus olhos também.
— Obrigada, mamãe.
— Mas pelo que, minha filha?
— Por estar sempre perto de mim e me
permitir voar.
Texto revisado em 27/02/2026.
Modelo da foto: Maria Júlia "Juju"





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