DAS TRIPAS CORAÇÃO
Leandro de Araújo
Havia poucas pessoas naquele grande salão. Algumas cadeiras formavam um tipo de plateia, com cinco homens de terno, fumando seus charutos, e uma mulher de vestido, que se abanava constantemente com um leque emplumado. Na parte lateral da sala, em pé, quatro soldados perfilados, com expressão séria. No fundo da peça, em frente a uma grande bandeira do Brasil Império que estava pendurada na parede, uma comprida mesa de madeira, três cadeiras e três homens: um tenente do exército brasileiro, um estancieiro e, ao centro, o magistrado indicado pelo império, o juiz municipal. No centro da sala, sentado em uma cadeira de palhinha, com mãos e pés amarrados, um negro, estranhamente com a cabeça erguida e um desafiador sorriso no rosto. Olhava para os três homens em sua frente com uma expressão onde não se percebia medo ou insegurança.
- Estamos aqui reunidos para julgar e sentenciar o escravo Adão da Silva, acusado de assassinar de forma premeditada e violenta, à traição, estripando um jovem na estância do Coronel Atanázio Gonçalves. Você tem alguma coisa para dizer em sua defesa, escravo?
- Tenho sim, seu juiz. Matei e mataria dez vezes de novo aquele bandido. Aquele branco abusava das mulheres pretas, mesmo das crianças. Batia nos negros apenas para divertir. Deve estar no inferno agora, aquele animal, segurando as próprias tripas. – disse isto e, de olhos arregalados, começou a sorrir abertamente.
O estancieiro, que estava ao lado do juiz, bate com força a mão direita na mesa e grita:
- Assassino! Negro assassino! Eu mesmo vou te matar, mas vou matar devagarinho, seu bandido miserável! Esse animal que você diz que matou era meu filho! – ao pronunciar estas palavras o homem ergue-se e avança em direção ao prisioneiro. Havia ódio em seu olhar e uma baba viscosa escorria pelos cantos de sua boca.
O estancieiro é contido por dois dos soldados que estavam na sala, enquanto o preso continuava rindo. Não mais o sorriso debochado, mas agora às gargalhadas. O juiz então bate com o malho na mesa três vezes e grita:
- Silêncio! Si-lên-ci-o! Se acalma, Coronel! Como o réu é confesso, sentencio à morte por enforcamento. Ao amanhecer do próximo dia deverá ser pendurado pelo pescoço até morrer. O corpo deverá ser enterrado sem cruz ou identificação alguma. – uma batida na mesa decreta definitivamente a decisão do juiz. Os quatro guardas levam o escravo para a prisão, que ficava aos fundo do fórum, onde havia acontecido o julgamento. Atanázio, de joelhos, chorava e ria ao mesmo tempo.
- Amanhã eu vou cuspir na tua carcaça, negro! – falou o estancieiro.
Os quatro guardas revezariam a vigília em frente à cela, de dois em dois. Atentos a todo movimento feito pelo criminoso, que seria executado ao amanhecer. Porém, era madrugada alta quando um dos soldados, em seu quarto de hora de vigília, percebe o escravo pendurado pelo pescoço por um pedaço de corda presa em uma das barras de ferro do teto, dentro da própria cela. O corpo balançando lentamente, os braços estendidos e a cabeça dobrada. O soldado, assustado, acorda o colega, que estava cochilando em frente a cela e diz:
- Vai avisar o delegado que o Adão se suicidou. – ao dizer isso, vai abrindo a porta da cela e entrando para ver o morto de perto. Ao se aproximar, o negro, que na verdade tinha a corda em laço passado por baixo de seus braços, abre os olhos e enlaça com as pernas o pescoço do militar antes que este pudesse reagir, asfixiando-o até fazê-lo desfalecer. Quando o delegado, acompanhado dos três guardas, chega à cadeia, encontra o vigia morto e um pedaço de corda pendurado no teto. O criminoso havia fugido. Um dos cavalos que estava amarrado atrás da cadeia havia sumido. Os demais estavam soltos espalhados pela rua, sem rédeas ou freios.
Adão não sabia por quanto tempo andou pelos campos. Semanas? Meses? Enfrentou chuva, frio, teve que cruzar rios a nado, desviar de penhascos. Passou fome, teve febre, comeu carne estragada. Mas nunca parou. Não podia parar ou olhar para trás, porque temia ser encontrado. Assim seguiu enquanto teve forças. Quando achou que não teria mais como ser encontrado por seus algozes, e já não tinha mais saúde ou energia suficientes para seguir, decidiu que estava na hora de procurar um lugar para ficar. Viu ao longe, no alto de uma coxilha, um bonito casarão com pomar, galpão e um mangueirão. Havia cavalos encilhados sob uma figueira. Era uma estância.
Estava a pé. Pois perdera a última montaria há muito tempo, ao cruzar um rio. Sujo, magro e com as roupas rasgadas, tudo que tinha a apresentar era um sorriso maroto. Deu “Oh, de casa!” na porteira e foi recebido pelo capataz, que o levou até o patrão.
- Como se chama, moço? – perguntou o coronel Licurgo, analisando aquela figura inusitada que estava em sua frente.
- Não tenho nome, não senhor. – respondeu o negro, sem erguer os olhos.
- Mas de alguma forma as pessoas te chamavam no lugar onde você vivia. Você vivia em algum lugar, não? Ou cresceu nas macegas, como uma perdiz?
O estranho visitante sorriu, pensou um pouco no que responder, e então falou, desta vez olhando nos olhos do coronel:
- Eu era escravo em uma fazenda de café. Sempre fui trabalhador, mas nasci assim: preto, falo alto, gosto de rir e brincar. Meus patrões não gostavam desse meu jeito e mandavam me bater todos os dias por esse motivo. Posso mostrar as marcas se o senhor quiser ver. Um dia, cansei de tanto apanhar e fugi. Na fazenda onde nasci não me deram nome, mas me chamavam de Nêgo das Tripas. O senhor pode me chamar por esse nome se quiser, não me importo, já me acostumei com ele. – a história contada pelo fugitivo era mentira, mas ajudava a esconder sua identidade e o verdadeiro motivo por estar fugindo.
- Pois bem, senhor Nêgo das Tripas. Nessas terras não temos escravos. Temos peões que podem morar por aqui e trabalhar. E temos muito trabalho. Forneço alojamento, alimentação, roupas e os vícios. Pago um salário duas vezes por ano, quando vendo gado para as charqueadas. São essas as condições. Se quiser ficar e trabalhar, fique. Se não quiser, pode jantar logo mais à noite, dormir no alojamento e seguir seu caminho ao amanhecer.
Era o final do inverno de 1880. Adão da Silva, agora Nêgo das Tripas, saiu da cozinha da estância, onde havia conversado com o Coronel, escoltado pelo capataz. Cruzou no quintal por uma mulher muito magra, de cabelos pretos e olhos de bugra, que tinha agarrados em sua saia um menino e uma menina. As crianças ficaram observando o estranho com uma expressão que misturava curiosidade e medo. Ele olhou para elas e sorriu. Não um sorriso de alegria, mas uma expressão ameaçadora que fez as crianças se esconderem atrás da mulher, assustadas. Em seguida, o estranho foi apresentado à Alípio, Apparício e Rufino, os peões da estância. Nêgo das Tripas gostou do que viu. Se sentiu livre, como nunca havia se sentido, e resolveu ficar. Virou peão na Estância do Lajeado.
Este texto é um fragmento experimental do romance "Espinilho", de Leandro de Araújo, que ainda não foi lançado. Aguardem!!!
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